Indígenas encenam um teatro a céu aberto em Mato Grosso e mostram o impacto negativo do encontro com os brancos

Pequeno afluente do Rio Paraguai, o Rio Branco foi palco de uma peça teatral encenada pelos indígenas da etnia Zoró para os jornalistas na Aldeia Escola Anguytatua, em Mato Grosso, no município de Rondonópolis, a mais de 200 quilômetros da capital do estado. O ano era 2008 e eu, juntamente com o repórter fotográfico Carlos Ivan, estava entre os jornalistas que formaram aquela privilegiada plateia. A foto que ilustra este texto é de Carlos Ivan e foi publicada no caderno Razão Social em dezembro de 2008.Estávamos fazendo reportagem para o suplemento de “O Globo” que eu editei até 2012.

Foto de Carlos Ivan publicada no Razão Social de janeiro de 2009 mostra o teatro a céu aberto

Carlos Ivan e eu já tínhamos ido a outras aldeias indígenas, sempre a trabalho, mas aquela visita foi especial. As cenas daquele teatro a céu aberto sempre me voltam quando vejo notícias sobre o papel dos indígenas como guardiães da natureza. Diferentemente dos brancos, esses povos têm uma relação intrínseca com a terra e rios, vivem na pele a importância da preservação porque é dali que tiram seu alimento.

 Hoje, vendo as notícias sobre a manifestação dos indígenas contra a dragagem de parte do Rio Tapajós, quis relembrar a cena aqui no blog. Vale a pena para reflexão.

Foi uma peça teatral sem enredo ou falas, com um roteiro simples, de fácil entendimento e, ao mesmo tempo, de uma profundidade inquietante para os não-indígenas. Na época, havia cerca de 650 Zorós no Brasil, e esse número hoje é de 755.

O espetáculo começou à tarde, logo depois do almoço, e foi acompanhado também pelo cacique Benamo, que se comunicava na língua tupi-mondé e era traduzido por um de seus filhos, Zawandu. Alguns atores se vestiram com roupas ocidentais e puseram barba postiça.

O objetivo era mostrar o que aconteceu com indígenas da etnia Zoró no momento exato em que fizeram o primeiro contato com os brancos. O encontro aconteceu em 1979, portanto, a pouco menos de três décadas daquele momento em que estávamos. E, exatamente, naquela beira do Rio Branco.

Os indígenas estavam excitados para encenar. A peça começou para valer quando uma canoa fabricada por eles próprios, com casca de Roxinho – uma árvore local – lentamente veio descendo o Rio Branco, conduzida por dois indígenas. Ela se aproximou da margem e voltou para trás. Naquele instante, o cacique Thoatore, um dos atores, começou a gesticular, como se estivesse muito aflito, tendo uma pedra como palco. Seus gestos demonstravam espanto, medo, aflição, num vai-e-vem incessante, em círculos.

A dramaturgia era para avisar que ele acabara de avistar outra canoa, que vinha na direção contrária à primeira. Aquela trazia outros atores. Eram indígenas caracterizados com barba postiça, calça comprida e camisa de manga. Estavam interpretando os brancos.

Deu-se o primeiro contato.  Indígenas amedrontados e brancos solícitos, oferecendo açúcar, refrigerante, panelas, armas, até um tênis. A canoa dos brancos era motorizada, e de lá eles não saíam: jogavam os presentes e iam embora.

O grupo de indígenas passou a experimentar aqueles objetos. A encenação levava a platéia a perceber que eles gostaram do açúcar, lambiam o refrigerante, demonstravam medo das armas e não sabiam muito bem o que fazer com o único pé de tênis.

 A peça teatral continuou, com uma passagem de tempo. No segundo encontro, os brancos encontraram os indígenas um pouco menos temerosos, ofereceram mais presentes e, dessa vez, foram convidados a ficar. Desce o pano.

O segundo ato começou com outra cena. A interpretação, dessa vez, foi muito mais definida. Os indígenas, depois de aceitarem todos os presentes, passaram a tossir, espirrar, bem alto, lá do meio do rio, para que a plateia, cá na beira, pudesse ouvir.

 Sim, nós ouvimos e entendemos. O contato com o branco levou doença aos indígenas. Nesse momento, o cacique Benamo, um personagem que estava na cena real, quando aconteceu, auxiliou a plateia a acompanhar melhor, explicando o que víamos. O texto abaixo reproduz o que ele disse, à época, aos jornalistas, sempre com Zawandu como intérprete:

“Antes era difícil fazer a roça com aquele machado tão pequeno. O branco nos apresentou outro, melhor. Mas eu não sabia que, junto com essas coisas boas, vinha também tanta doença e tristeza. Só que a gente não tinha outra coisa para fazer, porque as terras foram ficando pequenas, os brancos foram tomando tudo. Já fui até Manaus (a mais de dois mil km dali) aqui por esse rio, na minha canoa, sem encontrar nenhum branco. Hoje não dá para chegar nem até ali”, disse ele.

Perguntei-lhe: “E se pudesse voltar no tempo?’

“Se pudesse voltar, eu não teria feito contato com os brancos”, respondeu-me, para nenhuma surpresa minha.

Lembrei-me de toda a cena, colhi aqui nos arquivos as notas que fiz e trouxe para o blog como uma espécie de homenagem aos indígenas que estão, neste momento – liderados por povos do Baixo Tapajós e apoiado por outras etnias de outras partes do rio – agrupados, manifestando-se contra a dragagem do Rio Tapajós. Há impactos em série que a dragagem pode trazer, entre eles o risco de insegurança alimentar dos povos que vivem no local e o assoreamento do leito do rio.

Povos indígenas da América Latina são os melhores guardiões da floresta na região, principalmente quando seus territórios são demarcados, e têm papel decisivo contra a crise climática. Este é o  alerta do Relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e do Fundo para o Desenvolvimento dos Povos Indígenas da América Latina e do Caribe (Filac) divulgado em março de 2021.

Sendo assim, nada mais razoável do que ouvir os povos indígenas antes de tomar uma decisão como a dragagem de um rio tão importante. Felizmente, ao que parece, o Governo Federal voltou atrás e anunciou a suspensão do processo. Um Grupo de Trabalho Interministerial, com participação de representantes indígenas, será criado para discutir os processos de consulta.

Vamos acompanhar.

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About ameliagonzalez848

Produtora de conteúdo. Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho, um cachorro.
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