Nos dias de hoje, ser convidada para um evento presencial é uma raridade que merece respeito. Pensando assim, lá estava eu no dia 28 do mês passado, às 17h30, na Sociedade dos Engenheiros e Arquitetos do Rio de Janeiro, na Glória, para acompanhar o debate “Corte de árvores no Rio de Janeiro: critérios e responsabilidades”. Este tem sido um tema recorrente, não só aqui no blog como pelas ruas, praças, bares e padarias. Mesmo quem não tem ligação umbilical com as questões de mudanças climáticas tem se preocupado com a ilha de calor em que se transformam as megalópoles e na falta de oásis para nos confortar minimamente.

A mesa de palestrantes do evento tinha representantes da sociedade civil, do setor público, um promotor de Justiça, e meu colega, o jornalista Emanuel Alencar, fundador do movimento “Respira Rio”, com quem trabalhei quando eu editava o caderno Razão Social no jornal “O Globo”. Detalhe importante: foram convidados representantes da Secretaria Municipal do Ambiente e Clima e da Secretaria Municipal de Desenvolvimento e Licenciamento. Ambos não compareceram.
O time era bom e, como já disse, o assunto tomou um tardio sentido de urgência depois do que aconteceu no Flamengo, no final do ano passado. No terreno de um ex-colégio, a empresa construtora decidiu cortar 71 árvores para erguer seu prédio residencial.
Vale lembrar que, além de absorverem dióxido de carbono e liberarem oxigênio, vital para a respiração dos humanos, as árvores facilitam o escoamento da água das chuvas e ainda servem como abrigo e alimento para pássaros, insetos e outros animais. Matar uma árvore, portanto, é matar uma cadeia de seres vivos. Imaginem o estrago à natureza que foi o corte de 71 árvores.
Emanuel Alencar, o primeiro a ser convidado falar, resumiu um pensamento que eu já compartilhei aqui: por que os donos da incorporadora que vai construir o prédio no Flamengo não usou saberes de arquitetos conscientes para dar um jeito de compor com as árvores, em vez de destruí-las?

“Estamos vendo, na cidade, uma ocupação de território sem modelo. Qual o modelo de cidade do Rio de Janeiro? É possível fazer uma mediação com as árvores”, explicou o jornalista.
O jornalista lembrou que existe um Plano Diretor de Arborização Urbana na cidade do Rio de Janeiro, criado em 2015, mas está engavetado. A própria Fundação Parques e Jardins, que participou da produção do Plano, mudou seu perfil de atuação junto às árvores urbanas. O que se vê pelas ruas da cidade é o pessoal da Comlurb fazendo podas ou remoções.
Coordenadora do movimento “O Rio Não Está à Venda”, Rose Compans levou dados impressionantes sobre remoção de árvores urbanas – em dez anos a cidade do Rio de Janeiro perdeu 78.732 árvores – enfatizando que este é o resultado “de uma opção que o prefeito Eduardo Paes fez, de flexibilizar a legislação e ousar nas intervenções”. Rose Compans se referiu à lei municipal “Mais Valerá”, mecanismo baseado na Lei Complementar número 281 de 2025, que permite licenciar previamente construções e acréscimos que superam parâmetros urbanísticos — como altura, área e ocupação. O detalhe realista é: mediante contrapartida financeira.
Sim, o capital fala mais alto. O ex-vice-prefeito e ex-secretário municipal de Meio Ambiente do Rio de Janeiro, Carlos Alberto Muniz, último a se manifestar na mesa de palestrantes do evento, lembrou que há estruturas no setor público – e não são poucas, digo eu – que resistem às questões climáticas. Entre elas, a Secretaria Municipal de Obras, que lida com a necessidade de erguer moradias.
“Não vamos ter vitória total”, lamentou ele, que fez questão de pontuar a ausência de representantes do município no evento. “Fui secretário de Meio Ambiente durante oito anos e nunca fugi a um debate”.
“O planejamento urbano desconhece os ensinamentos do mundo das plantas”, escreve o mais importante especialista global em neurobiologia vegetal, autor de “Revolução das Plantas” e “Nação das Plantas”, e de “Fitópolis”, recém-lançado. Sábias palavras.
Mas, pelo que pude perceber no auditório cheio do evento ao qual participei como ouvinte – cerca de 90 pessoas na plateia – a sociedade civil estará sempre atenta para denunciar e exigir.
Neste sentido, vale lembrar que ontem, dia 4 de fevereiro, entrou em vigor a Lei Geral do Licenciamento Ambiental. Seis meses atrás foi aprovado, por parlamentares do nosso poder executivo, um Projeto de Lei que cria uma espécie de “livre mercado da destruição”. Para saber mais a respeito, entre no site do Observatório do Clima.