Um lugar onde os cachorros são salvos e bem cuidados

Como é bom viver em um mundo onde há pessoas capazes de se unir e criar um coletivo com um nobre objetivo, o de ajudar cachorros que foram abandonados. Bem, nesse mesmo mundo há pessoas que abandonam cachorros, e outras que até os matam cruelmente. Não vou falar a respeito da barbárie ocorrida em Santa Catarina porque não consigo fazer contato com aquela monstruosidade.

Este texto é para contar uma boa prosa.

Bolt, nosso querido, doido para ter uma casa só para ele tomar conta

Moro em um bairro que gosta de cachorros. Na verdade, a gente costuma dizer que aqui moram mais caninos do que humanos, o que certamente é um exagero. Mas é um despropósito simpático.

Ocorre que nossa empatia foi se alastrando feito rastro de pólvora por toda a gente e tem ultrapassado fronteiras. Isto quer dizer que, mais amiúde do que seria desejável, alguém decide pregar uma peça (comentário que contém uma tonelada de ironia) em seu bicho de estimação, aquele mesmo que diariamente, anos a fio, recebia o tutor com o rabo abanando em festa, fosse qual fosse a situação, e o abandona aqui na rua.

 Vez ou outra o antropocentrismo é tamanho que traduz a covardia em compaixão pelo animal. E o tutor o amarra a um poste para mostrar zelo para que o bichinho, preso, não perambule a ponto de ser atropelado. De uma só tacada, o cruel abandona o cão e impõe-lhe uma tormenta de estar preso, às vezes debaixo de um sol tremendo, sem condições mesmo de buscar comida estragada em algum canto.

Mas temos boas notícias, e é delas que vou tratar aqui. Nos grupos criados para tentar garantir a proteção desses bichos, há casos narrados pelos que se tomam por ‘cachorreiros” (adoro esse apelido), ou seja, pessoas que chegam perto dos animais e levam-nos para abrigos, dando conta de uma transformação radical no comportamento do cão abandonado. De triste e cabisbaixo, depois de poucos dias de comida, carinho, bons tratos e segurança, eles se tornam guardiães do(a) humano(a) que os protegeu. É lindo de ver. E verdadeiro.

Não sou uma cachorreira legítima. Em parte porque sou tutora de um Shih Tzu bem territorialista, que não receberia com apupos outro ser de quatro patas aqui em casa. Acho até que depois de um tempo ele seria obrigado a se acostumar, mas não quero submetê-lo a essa aflição.

Sendo assim, estou na linha do “ajudo como posso”. Como as redes sociais possibilitam esse vazamento de conversas para um canto e outro, participo de dois grupos de cachorreiro(a)s .

O primeiro grupo que me atraiu surgiu há dois anos, quando uma amiga que mora na Lagoa se compadeceu de um cão preto muito magro e deprimido que perambulava por ali, sem dono e sem rumo. A coleirinha que os abandonados ostentam é o triste símbolo de que um dia foram parceiros de um humano.

 Um contou para o outro, que contou para um terceiro, alguém arrumou um táxi, outro alguém fez contato com uma pessoa que tem abrigo… E lá se foi o cão magro e deprimido, que por ter pernas longas recebeu o nome de Bolt.

Bolt recebeu cuidados veterinários (esta é sempre a primeira providência após o recolhimento). Andava comendo besteiras na rua há muito tempo, pelo jeito, o bichinho, porque tinha problemas no fígado. Mas recebeu o tratamento adequado, tomou antibiótico, as vacinas necessárias. No abrigo, os primeiros dias foram de solidão para Bolt, pois pretendeu-se fortalecê-lo antes de ser apresentado aos amigos.

O tempo passou e Bolt se recuperou totalmente. O grupo que se criou para assegurar sua saúde, do qual orgulhosamente eu faço parte, vira e mexe tenta fazer algum movimento para que Bolt arrume uma casa para chamar de sua, um tutor ou uma tutora que ele precise guardar, afinal é esta a função dos cães. Ainda não conseguimos, mas não perdemos a esperança. O problema é que o abrigo tem outros tantos (acho que uns 30) na mesma situação. De qualquer maneira, na rua Bolt não fica mais.

Já um outro grupo se formou em torno de Pérola e Chérie, duas fêmeas que foram amarradas em uma calçada aqui perto. Alguém passou, viu, pegou, levou para o veterinário, um abrigo… o mesmo esquema. Pérola teve sorte, já foi adotada, e hoje vive vida de madame no Leblon. Chérie, sua companheira de desdita, ainda aguarda a boa fortuna.

A bela Chérie, como não adotar?

Mal cuidávamos das duas, quando, em uma manhã calorenta no dia de Natal, um malhadinho apareceu zanzando pelo bairro.  Foi feito todo o périplo novamente (ah, sim, eu me esqueci de dizer que todos e todas passam pela castração), o cão recebeu o nome de Noel (não podia ser outro, né?) e também já está abrigado.

Poucos dias depois, o agora Rudolf foi encontrado à beira de um caminho perigoso, a um passo de ser atropelado, o bichinho. Lá foi Rudolf ser bem cuidado, bem tratado, ganhou casa, comida, e outros companheiros. Também está no abrigo, também querendo ser adotado.

Esta é a história com final quase feliz para alguns cães abandonados que ganham, ao menos, abrigo e comida.

E se alguém aqui quiser se juntar e colaborar, será muito bem-vindo. O endereço para a vakinha dos três abrigados de Laranjeiras – Noel, Chérie e Rudolf – é este: https://www.vakinha.com.br/5886152.

Rudof, todo alegre agora que é bem cuidado
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About ameliagonzalez848

Produtora de conteúdo. Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho, um cachorro.
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