Governo do Rio cria política de promoção da cultura oceânica e as vidas marinhas agradecem

Um assunto puxa o outro, que puxa outro, e assim vai se fazendo o bordado de quem escreve sobre a natureza, melhor dizendo, sobre os impactos que a raça humana causa à natureza. Há muitos fios para se puxar porque é amplo o espectro dos assuntos que envolvem os impactos causados em prol do desenvolvimento, que às vezes é bem-vindo mas que, na maioria das vezes, tem sido desmedido, acirrado pela ganância e pela fala de limites. Estamos vendo isso em cores e ao vivo, pelos atos provocados por Donald Trump, que se toma como líder da nação mais rica.

Foto tirada de um frame do documentário “Ocean”

Bem, mas ia dizendo que um assunto puxa o outro. E aos amigos e autores que me rodeiam, todo o meu agradecimento porque me fornecem o alimento certo para poder compartilhar com os leitores alguns pensamentos que vão longe do que estamos vendo, ouvindo e lendo diariamente em tempo real. Dá tanta angústia que, muitas vezes, a gente tem vontade de fechar tudo e apenas sonhar.  Meu convite, aqui, é ampliar pensamento.

Um bom começo para essa conversa é o documentário “Ocean” (assistir somente pelo stream da Disney), dirigido e narrado por David Attenborough, apresentador britânico de 99 anos,  considerado uma espécie de tesouro do Reino Unido, que há cerca de sete anos tornou-se uma voz potente contra o extermínio da natureza. Nos primeiros 25 minutos do filme, as imagens são de deixar qualquer um extasiado com tanta beleza. É tanta vida que existe no mundo submarino. E vidas tão coloridas, legítimas, dignas.

A partir dos 25 minutos, como sói, chega o tempo da denúncia. Eu não sabia, por exemplo, que existem já 400 mil indústrias espalhadas nos oceanos. Navios plataformas imensos, que não só abrigam milhares de pescadores, como também geram emprego – não se sabe em quais condições trabalhistas, mas dá para fazer uma ideia.

Nas plataformas imensas há máquinas potentes capazes de transformar o pequeno peixe vermelho de nome krill em ração e comprimidos de Ômega 3 que vão dali direto para a gôndola da sua farmácia ali na esquina.

Ocorre que o krill, o que tem de pequeno, tem de gigante em importância na cadeia alimentar na vida marinha, já que serve de alimento para baleias e focas, além de ajudar a regular o carbono atmosférico. Os krills se alimentam de fitoplâncton e têm a capacidade de produzir luz (são bioluminescentes), sendo cruciais para o ecossistema.

Foi na década de 1980, que os japoneses descobriram que os pequeninos peixes também podem ser usados como suplemento para humanos. (Aqui vale a dica: a linhaça está entre os vegetais que também fornecem essa “gordura boa”, como se descobriu depois). Com a descoberta, houve uma corrida global ao Ômega 3, ou seja, ao krill. Resultado direto: a população de krill está sob ameaça severa, não só por causa da pesca industrial como por causa das mudanças do clima.

É só um exemplo, dos muitos que Attenborough lista em seu documentário, lançado em maio de 2025, para mostrar que é preciso ter um limite para a pesca industrial, e que nossos oceanos estão completamente à mercê da ganância do desenvolvimento inescrupuloso. Só 3% são protegidos. O britânico faz questão de afirmar que não é contra a pesca, mas enfatiza a necessidade de que a atividade venha seguida pela palavrinha mágica: preservação.

“A pesca saudável e a preservação têm os mesmos objetivos: mais peixes, mais abundância e mais saúde para os oceanos”, diz ele. “Oceans” vale a pena ser visto, e quem me chamou atenção no livro de Donna Haraway, “Ficar com o problema” (Ed. N-um) sobre o qual já falei várias vezes com vocês, caros leitores e caras leitoras. A ela, todo meu agradecimento.

O assunto mares e oceanos ficou me rondando, portanto. Até que a amiga Lucila Soares, que atravessou o Atlântico para gozar de merecidas férias, mandou-me uma foto, um texto, e a mensagem: “Lembrei de você. Dá assunto para a sua coluna”.

Mais do que depressa, inteirei-me do assunto. No Museu Guggenheim, em Bilbao, uma das salas é ocupada por uma escultura metálica de oito metros de altura por 14 metros de largura, do artista ganês El Anatsui, já aos 81 anos. A obra se chama “Mar Crescente”.

“A serena harmonia visual contrasta com o título da obra, Mar Crescente, que nos lembra e nos alerta que a natureza e as civilizações podem ser transformadas em um instante. A grande escala da obra é, portanto, uma metáfora da enormidade das mudanças climáticas”, diz o texto explicativo.

Pouco mais de 400 km separam o país de El Anatsui de Lagos, na Nigéria. E Lagos é uma das 48 cidades que, segundo um estudo realizado por pesquisadores da Nanyang Technological University, em Singapura, está ameaçada de ser engolfada pelo mar até 2100. Rio de Janeiro e Tóquio também estão na lista divulgada pelos pesquisadores de Singapura em janeiro de 2025. El Anatsui denuncia o problema e retrata o avanço do mar sobre um horizonte urbano com escarsas marcas de cor na obra (veja aqui, no site do artista). 

É interessante ler também sobre a vida do artista de Gana, país colocado na 143 ª posição entre 193 nações listadas no Relatório de Desenvolvimento Humano do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) de 2025. El Anatsui conquistou o mundo enquanto vivia e trabalhava na cidade universitária nigeriana de Nsukka. O material predileto dele são as tampas de garrafa de metal, assim como o tecido.

“Mar Crescente” foi realizada em 2019 e, para concretizá-la, El Anatsui empregou uma equipe de pessoas de toda Nsukka. Apontou, com essa atitude, uma sensibilidade que deveria ser universal – a arte que gera empregos e renda.

Vou terminar com uma  nota fresquinha, que dá título ao texto. Na verdade, se eu seguisse a ordem correta das notícias, teria que abrir o texto com ela. Mas ando meio desordeira.

Foi logo no iniciozinho do ano que outro amigo, Márcio Santa Rosa, que trabalha na Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade do estado do Rio e tem um especial carinho pelo desenvolvimento sustentável que os oceanos e mares podem oferecer, mandou-me uma mensagem lacônica, só com um link. Era uma notícia do Diário Oficial do Rio de Janeiro. E foi uma boa surpresa.  

Trata-se da lei estadual número 11.103, de 15 de janeiro de 2026, assinada pelo governador Castro,  dispondo sobre a “Criação da política estadual de promoção da cultura oceânica do Estado do Rio de Janeiro”.  Uma leitura mais apurada do texto da lei pode provocar até uma parcimoniosa euforia.

A considerar verdadeiras as intenções dos servidores envolvidos no novo regramento, o estado do Rio de Janeiro tem, desde então, obrigação de seguir um letramento oceânico que, segundo o texto do D.O. significa “conhecer a influência dos oceanos sobre nós e nossa influência nos oceanos”. Ora, só isto já vale minha parcimoniosa euforia.

Estou entendendo que agora é lei: crianças, jovens e adultos precisam se dar conta de tudo aquilo que David Attenborough fala em seu documentário. Seria muita ousadia minha pedir que as escolas estaduais fossem obrigadas a fazer sessões audiovisuais com “Ocean with David Attenborough”?

Para além do letramento, haverá necessidade de as escolas ensinarem educação ambiental. Faremos ainda campanhas de sensibilização sobre o impacto da poluição marinha, sobre a elevação dos mares e pesquisas serão incentivadas. E mais: o estado vai dar um Certificado de Amigo da Cultura Oceânica para empresas que atuam na exploração dos recursos marinhos e adotem práticas sustentáveis.

Só boas notícias. E assim termino meu texto que, como sempre, ficou maior do que eu gostaria. Mas, o que eu posso fazer se meus amigos são um barato e se eu só me cerco também de bons e criativos autores?

Avatar de Desconhecido

About ameliagonzalez848

Produtora de conteúdo. Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho, um cachorro.
Esta entrada foi publicada em Uncategorized. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe um comentário