‘Cidades são epicentro de nossas agressões ao meio ambiente’, escreve Stefano Mancuso

O tema do post anterior continua em evidência, portanto vou retomá-lo. Escrevi sobre a morte das 71 árvores que estavam postas em sossego em um terreno privado de um colégio no Flamengo e foram derrubadas para darem lugar a prédios com mais de 400 apartamentos.

Lindos ipês que floraram aqui na esquina. Por que não temos campanhas para salvar árvores? Foto Amelia Gonzalez

“Ainda que ocupem uma pequena porção da superfície terrestre (2 a 3%), as cidades são o epicentro de nossas agressões ao meio ambiente”, denuncia Stefano Mancuso.

 Trata-se do escritor italiano, o mais importante especialista global em neurobiologia vegetal, autor de “Revolução das Plantas” e “Nação das Plantas”, entre outros. Mancuso agora brinda os leitores com “Fitópolis”, que será lançado em fevereiro pela Editora Ubu, cuja leitura me acompanhou nesses primeiros dias do ano.

No livro, Mancuso demonstra a total incapacidade de a humanidade perceber a importância da vegetação nas cidades. Na natureza, a relação é de 86,7% de plantas contra 0,3% de animais. No entanto, mesmo sabendo disso, nossas cidades têm sido projetadas com uma espécie de cegueira vegetal.

Nesse ponto, e em vários outros do livro, não há como dissociar o que diz o italiano do que estamos vivendo no Rio de Janeiro hoje. A cidade deveria ter pelo menos mais 300 mil árvores, segundo informações do meu colega Andre Trigueiro no portal G1. Ocorre que empresas que recebem autorização para fazer empreendimentos apenas se cumprirem a compensação, nem isso fazem.

É bom que se diga: exigir o plantio de mudas para compensar o desmatamento é quase inócuo. As mudas são plantadas e, em geral, não há acompanhamento para ver se, de fato, estão crescendo e se desenvolvendo para compensar todo o serviço ambiental que as árvores extirpadas prestavam.

Vamos a alguns dados bem alarmantes sobre a falta de árvores em cidades, anunciados por Stefano Mancuso em seu necessário “Fitópolis”.

. Hoje, 350 cidades vivem três meses em que as temperaturas não ficam abaixo de 35 graus. Em 2050, serão 970 cidades nessa situação;

. Hoje, 200 milhões de pessoas vivem em cidades em condições de calor extremo e esse número chegará a 1,6 bilhão em 2050;

. Hoje 14% da população urbana mundial vivem em cidades muito quentes e, em 2050, serão 45%

. Se o aquecimento global alterar o ambiente a uma velocidade superior à capacidade de deslocamento das nossas florestas, as consequencias podem ser dramáticas

Não são profecias apocalípticas, mas estudos realizados por incansáveis cientistas que, a despeito de não serem ouvidos, continuam debruçados em computadores (eram pranchetas) calculando o quanto nos custará nossa indiferença. Mancuso reuniu alguns desses dados em seu livro e alerta:

“Segundo a maioria dos modelos, nos próximos 30 a 50 anos uma porcentagem significativa do globo estará quente demais para se viver.”

Bem, mas alguns seres vivos terão mais capacidade do que os outros de sobreviver ao colapso. As árvores, garante Stefano Mancuso.

“O planejamento urbano desconhece os ensinamentos do mundo das plantas. Onde quer que se reduza a biodiversidade (mesmo em diferentes áreas de uma cidade) o risco de o ambiente se tornar instável é muito maior” , denuncia o italiano.

Stefano Mancuso defende um modelo de cidade baseado nas plantas, que funcionaria da seguinte maneira:

“Cidades mais espalhadas, onde a maioria das necessidades dos cidadãos podem ser satisfeitas em longos trajetos e nas quais cada bairro é construído de forma a garantir a maior biodiversidade possível, representam um pré-requisito necessário para a resistência”, escreve Mancuso.

Ao mesmo tempo, o escritor se pergunta: “Como é possível realizar a mudança drástica que seria necessária para resistir ao aquecimento global, se mesmo propostas ridiculamente limitadas como plantar árvores ao longo da rua encontram oposição?”

Qualquer semelhança com o que vivemos no Rio de Janeiro não será mera coincidência. Porque o modelo animal é rígido.

“Para viver milênios é necessário que nenhuma parte do corpo seja única e insubstituível, e para que isso seja possível, cada função essencial à vida precisa ser distribuída por todo o corpo e não se concentrar em órgãos especializados. A organização da planta é exatamente assim, espalhada e distribuída, capaz de responder a limitações catastróficas sem perder a funcionalidade. O exato oposto da organização animal, baseada em uma hierarquia rígida e na especialização segundo a qual basta que alguns órgãos falhem para que toda a organização entre em colapso”.

Mancuso dá a régua e o compasso. Assim como ele, alguns outros pensadores da urbanidade não se limitam ao trivial para pensar em centros urbanos que possam oferecer qualidade de vida aos moradores. É preciso evitar a organização centralizada, entender a cidade como um ser vivo, que nasce, cresce e morre. Participar da vida desse ser vivo requer cuidados e requer ter respeito a todos os seres vivos que convivem conosco.

O livro vale muito a pena. Recomendo.

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About ameliagonzalez848

Produtora de conteúdo. Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho, um cachorro.
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