Na absoluta impossibilidade de (d)escrever ações para conter as mudanças do clima, extermínio criminoso de árvores urbanas, resíduos urbanos não coletados, desmatamento, poluição, temas que sempre povoam este blog, decido pegar carona nos pensamentos inquietos de Dona Haraway em “Ficar com o problema” (Ed. N-um). Sim, estou incapaz de construir um pensamento que se desprenda das cenas arrogantes protagonizadas por um homem que se toma por líder de grande nação e sequestra outro para roubar-lhe o território, petróleo e terras raras, sem considerar o direito sagrado de uma população fazer escolhas. Pior: obrigando as pessoas a sentirem pânico e dor.

Deveria estar escrevendo sobre a quantidade desastrosa de lixo deixado pelas pessoas que foram passar a noite de ano novo nas areias da Praia de Copacabana. Deveria estar cobrando de mr. Trump os bilhões ou trilhões que tem gasto com armamento sem dar atenção à necessidade dos países vulneráveis aos eventos extremos causados por emissões de gases poluentes de nações como a dele, a mais rica do planeta.
Mas eu me sentiria desfocada, aquela que fala sobre coisas nada-a-ver. Porque só se tem olhares para as mudanças do clima quando acontece uma grande Conferência, como foi a COP30, em Belém. Foi em novembro, lembram-se? Há pouco mais de um mês.
Em vez disso, busco, preciso tentar desconstruir as imagens que me obrigam a ver, em todos os sites noticiosos na internet, de um homem tolhido de visão e audição, com algo nas mãos que não entendo bem, num cenário semelhante a um bunker. É um presidente, foi eleito pelo povo. A imagem foi também a primeira página dos principais jornais impressos do mundo.
Na verdade, o estado do mundo, hoje, me entristece. Tento construir um hiato de tempo para pensar outras coisas. Sem forças para lutar contra tantos desmandos, peço licença aos leitores para fabular um pouco. Lendo Haraway, espelho-me em um trecho da escritora ficcionista Ursula Le Guin, que ela reproduz. Diz Le Guin: “Eu sou uma mulher envelhecida e zangada, impondo-me com a minha bolsa, lutando contra os bandidos”. Se tirar a palavra “envelhecida”, pois não é assim que me sinto, o resto sou eu.
Às vezes zangada – o calor excessivo destrói meu humor – às vezes nem tanto, me transformo em um ser livre, andando por aí com uma bolsa coletora, a sair juntando bons pedaços de tudo o que mais quero perto de mim. O que levaria na minha bolsa coletora? Fiz uma lista, que compartilho com os leitores nessa tarde/noite chuvosa do primeiro domingo de 2026, o ano que começou com uma guerra.
Levaria na minha bolsa…
O doce vagar de um olhar que vai de um canto a outro sem buscar nada. Um olhar que apenas sorve o que as árvores, as pedras, as plantas, os bichos e o céu têm para mostrar;
O barulho da chuva caindo no chão, acariciando as folhas. E elas adoram esse contato;
O aconchego de um cão;
O doce momento empregado em não empregar, em desempregar. Um doce momento, apenas isso. Sendo;
Uma distração;
Todos os bichos. Bem, quase todos – que me desculpem as baratas e os mosquitos, eles não estão nessa lista, por eles não tenho afeto;
Uma paisagem paralisada que trago de tempos idos. Manhã fria, bem fria, com céu azul, sol fraquinho, e a intensa e rara sensação de estar bem segura;
A sensação de acolhimento que sinto ao ver uma luz de cor amarela, bem fraca, em um cômodo quieto, com uma cortina branca fechando parte de uma janela de madeira;
A sensação de amparo que me traz a lembrança de uma estrada de terra vazia, com dois, três, quatro postes daqueles antigos, de lâmpadas quentes, a iluminar o caminho;
Uma estrada que leva e traz pouca gente;
Motores não barulhentos, com potência certa, capaz apenas de servir como apoio às pernas dos coletores. Para que mais?
A não velocidade;
A não ganância;
O desacúmulo, para não explorar mais os bens comuns da natureza;
Eu levo na minha bolsa coletora a vontade, o desejo;
O movimento. Faz parte de mim não gostar de estar parada;
A despreguiça;
A água, a terra, todas as plantas;
Um som que não é melodia;
Na minha bolsa coletora cabem também os livros que me ensinam. De autores que compartilham aquilo que lêem em outros livros. Não de autores que ditam verdades;
Levo comigo a delícia do ser.
Minha bolsa coletora estará comigo em todos os cantos em que eu puder me sentar, com meu cachorro do lado, meus pensamentos soltos. E meus pedidos de desculpas por tudo o que nós, dessa raça incrível que consegue ser a única que destrói o próprio habitat, estamos fazendo ao meio ambiente.
Feliz 2026! Ainda há tempo para se desejar coisas boas.