Desde as 10h estamos (a mídia especializada) aguardando a plenária final da COP30.
É aquele momento em que a presidência da Conferência, no caso o embaixador André Corrêa do Lago, entrega à sociedade o texto que a duras penas foi conseguido, em consenso, com os 194 países que fazem parte do encontro.
A madrugada foi intensa, e ainda estão reunidos.
Mas faço questão de destacar aqui para vocês dois pontos importantes, que certamente vão ser nublados pelas notícias quentes da política nacional, com a prisão do ex-presidente.
O primeiro ponto: indigenas e povos pretos foram mencionados no texto, como partes interessadas e importantes para conter o aquecimento global. Nada mais justo. Há algum tempo esteve aqui no Brasil uma representante da ONU que cunhou a expressão: os indígenas são os guardiães da floresta. Agora eles são justamente lembrados.
O segundo ponto que acho interessante, pelo que até agora surgiu, é a resposta dos cientistas, aqueles mesmos que escreveram a carta sobre a qual eu fiz menção neste post.
Reproduzo abaixo, na íntegra, o texto que eles acabam de divulgar.
Sigo aqui esperando a plenária.
Reação de cientistas | Carlos Nobre – Painel Científico da Amazônia; Fatima Denton – United Nations University; Johan Rockström – Potsdam Institute for Climate Impact Research; Marina Hirota – Instituto Serrapilheira; Paulo Artaxo – Universidade de São Paulo; Piers Forster – University of Leeds; Thelma Krug – Presidente do Conselho Científico da COP30.
A verdade é que não há como evitar um perigoso aumento da temperatura global sem acabarmos com a dependência de combustíveis fósseis até 2040, ou no mais tardar até 2045. Não cumprir isso empurrará o mundo para uma perigosa mudança climática dentro de 5 a 10 anos, causando extremos climáticos cada vez mais intensos que afetarão bilhões de pessoas. Sistemas essenciais para a capacidade da Terra de sustentar nossa sociedade, como a Floresta Amazônica, os Recifes de Corais, as Calotas de Gelo, as Correntes Oceânicas podem atingir pontos de não retorno. No início da semana, dissemos que a COP tinha uma escolha — proteger as pessoas e a vida, ou os interesses da indústria de combustíveis fósseis. Apesar dos melhores esforços do Brasil e de muitos países que trabalharam para unir o mundo em torno de um roteiro para acabar com nossa dependência de combustíveis fósseis, forças contrárias bloquearam o acordo. Elas parecem ignorar que, ao contrário dos pavilhões da COP, não podemos evacuar o planeta Terra quando desastres acontecem.
Uma transição energética alinhada à ciência exige liderança, coragem e coerência. Devido ao fracasso, até agora, em implementar o Acordo de Paris, o ritmo necessário de mudança é extremamente elevado. Precisamos ver as emissões globais começando a cair a partir de 2026 e passar de um cenário de aumento das emissões para reduções de 5% ao ano. Isso, junto com a proteção dos sumidouros de carbono na natureza e a ampliação das remoções de carbono (CDR), é necessário para minimizar o transbordamento e retornar a um futuro climático administrável para a humanidade.
Como cientistas, sabemos que os seres humanos são capazes de feitos extraordinários. Aqui em Belém, muitos países mostraram que estão prontos para se libertar do domínio e dos perigos dos combustíveis fósseis. Esses serão os vencedores do século XXI. Agora é hora de nos unirmos em um Mutirão dos que estão dispostos a liderar o caminho. A ciência está, e continuará aqui para ajudar. Trabalhando com a Presidência brasileira, vamos propor a criação de um Painel Científico sobre a Transição Energética Justa e o Fim dos Combustíveis Fósseis, para subsidiar o Acelerador Global de Implementação.