Desde o dia 6 de novembro estamos circulando por assuntos ligados ao meio ambiente por conta da COP 30. Quando eu escrevo “estamos”, estou querendo me referir a nós, jornalistas ligados ao tema. Sobretudo aqueles que estão lá, em Belém, onde tudo está acontecendo.
Hoje sentei-me para ouvir, ler e escrever um texto com as novidades. E fui abduzida pela carta dos cientistas. Estava em outra vibração, mais positiva, achando bom até mesmo o simples fato de o tema estar na roda. Mas os cientistas – entre eles Carlos Nobre e Paulo Artaxo – puxaram minha cordinha. Já me explico.
Continuo achando bom uma reunião dessa magnitude estar acontecendo no coração da Floresta Amazônica. Continuo achando bom que os povos indígenas, os ribeirinhos, os pantaneiros, os povos da floresta, aqueles que realmente sentem os efeitos das mudanças climáticas em geral estejam sendo ouvidos, estejam ocupando lugares na Green Zone.
Achei bom aquele fundo para florestas tropicais para sempre (TFFF), que o presidente Lula apresentou de forma tão simples, dizendo: “Não é doação, é investimento”. Mas preciso confessar que, naquele momento, um certo desconforto me roçou o pensamento: “Ora, mas então o modelo continua o mesmo, ou seja, a ideia é ganhar mais dinheiro, acumular para consumir…” Logo uma amiga me disse, e eu repensei: “Mas é este o sistema capitalista, e é nele que vivemos”. Fazer o quê?
Estava indo por esse caminho. Usando lentes cor de rosa, na linha do “dos males, o melhor”.
Até que duas frases da carta que os renomados cientistas divulgaram ontem (19) pela manhã, conseguiram acender a luz da razão. E espanei as lentes otimistas.
“A proteção florestal não pode ser usada como compensação. Florestas em pé não podem ser uma desculpa para continuar queimando combustíveis fósseis”.
Juntei-me novamente àqueles que entendem que a raiz da crise climática está no modelo global de consumo, que esgota os recursos naturais e amplia as desigualdades. E na produção em massa, extração sem limite e desperdício em escala mundial. Essa nefasta combinação, que está também na essência de um sistema econômico baseado no acúmulo de riquezas, causa o desmatamento, a poluição e o aquecimento do planeta. E todos os eventos extremos que advém desse cenário.
Bem faz o pessoal da ONG 350.org, que lançou hoje mesmo a campanha “Mind the Gap-ybara”. Confesso que levei um tempo e precisei conversar com amiga(o)s jornalistas (já falei aqui, tenho um grupo que é de causar inveja) para perceber a mensagem.
Solange Noronha decifrou:
“No Metrô de Londres a expressão Mind the Gap é usada para alertar as pessoas sobre o espaço entre o trem e a plataforma. Os ambientalistas podem estar querendo chamar a atenção para o fosso que há entre intenção e gesto na questão climática”, disse ela.
Bingo!
Já escrevi aqui sobre a eterna sensação de estarmos vivendo uma era dos paradoxos. Acho mesmo que se Eric Hobsbawm estivesse vivo, poderia agregar esse livro à sua excelente série de “Eras”…
Faço um parêntese para dizer que as capivaras são animais maravilhosos. Não querem briga com ninguém, são amigas de todo mundo, até mesmo de seus predadores. É um mamífero roedor, mas flutua bem nas águas, onde pode permanecer para se livrar do perigo, e dá um latido curto para avisar de perigo. Vivem sua curta vida – chegam, no máximo, a 15 anos, como nossos pets – na boa, e até comem suas próprias fezes quando não tem outro jeito.
Não à tôa a capivara se tornou uma paixão nacional.
Mas, voltando aqui aos paradoxos, hoje mesmo, penúltimo dia da COP30, a COP da Verdade, a COP da Implementação, ficamos sabendo que o Salão do Automóvel voltou ao Brasil depois de sete anos e que a Jeep apresentou detalhes do SUV que chegará ao Brasil no próximo ano.
Reproduzo um trecho do livro “A política da mudança climática”, de Anthony Giddens, quando ele apresenta o SUV – “É impossível que esses motoristas (de SUV) não saibam que estão contrivuindo para uma crise de proporções épicas no que tange ao clima mundial” – e se apressa em dizer: “Somos todos motoristas de SUV”.
“Pouquíssimos de nós estamos preparados estamos preparados para a gravidade das ameaças que temos pela frente”, escreveu Giddens em 2009.
Seguindo o pensamento de Giddens, eu pergunto: estaríamos preparados para dizer “não!” à disposição da empresa automobilística de querer produzir aqui seu novo carro? Mesmo sabendo que as fábricas de automóveis hoje são mecanizadas, ainda assim há empregos no entorno. E há toda uma entourage em defesa de tais lançamentos.
Eu respondo, trazendo aqui outro trecho de outra conversa com outra amiga: “Não, ainda não estamos preparados para a mudança necessária”.
Será que um dia estaremos?
Termino essa reflexão com um trecho do release da 350.org, com o pensamento de Brianna Fruean, Anciã do Conselho do Pacífico da 350.org:
“Essa discrepância entre ambição e ação não pode ser ignorada. Nossos povos do Pacífico estão lutando com unhas e dentes para manter o aquecimento global abaixo de 1,5 graus e nossas ilhas acima do nível do mar. Por que precisamos ser constantemente a ponte entre o mundo e a sobrevivência? Nossos anciãos merecem descansar e nossos jovens merecem prosperar, livres da crise climática.”
Com o fogaréu que se espalhou hoje em Belém, justamente na Blue Zone, área que a ONU administra na COP, vamos nos despedindo dessa mega COP, mega em todos os sentidos. Mas ainda volto aqui para falar dela porque falta o documento final.
A grande dúvida é: o texto escrito a 194 mãos (os países da ONU) vai dizer que é preciso baixar a produção e o consumo de combustíveis fósseis? E como garantir a prosperidade de nossos jovens sem lançamentos de SUVs, por exemplo? Ou sem pesquisar para descobrir novos locais de exploração de petróleo?
