A Quaest, instituto de pesquisas que usualmente consolida dados para alimentar o debate público, decidiu se engajar (estou fazendo referência ao meu último post) às questões climáticas. Criou o Índice de Percepção de Mudanças do Clima (IPM-Clima), e depois de entrevistar duas mil pessoas com 16 anos ou mais, em todo o território nacional, concluiu que 94% já sentiram alguma mudança do clima em sua região. Importante dizer que a pesquisa foi feita de 3 a 16 de julho, portanto quando as notícias sobre a COP 30 ainda não estavam ocupando a mídia de maneira tão intensa como agora.
No estudo, quando o entrevistado é instigado a responder sobre que tipo específico de mudança ele mais sentiu, as respostas se diversificam. Afinal, o Brasil é muito grande. A maioria, 69%, sentiram ondas de calor mais intensas do que o normal e 42% se queixam das secas mais prolongadas, enquanto 35% perceberam que algo está mudando nas estações do ano. Geadas, incêndios e chuvas mais intensos ocuparam 34 e 32% das respostas.
Com isso, 77% dos brasileiros estão preocupados, o que já é um grande primeiro passo para provocar mudança. E, a depender de 84% dos respondentes, o setor produtivo, ou seja, a indústria, precisa ser responsabilizadas pelas mudanças do clima. Logo abaixo, com 38%, vem a mea culpa: a sociedade de consumo também precisa ser estimulada a fazer uma mudança em seus hábitos.
Esse dado remonta à “Encíclica Laudato Si”, escrita pelo Papa Francisco e publicada em 2015. O documento foi saudado pelos ambientalistas à época, justamente porque toca nos dois pontos mais sensíveis do problema: a produção e o consumo.
“Temos de nos convencer que reduzir um determinado ritmo de produção e consumo pode dar lugar a outra modalidade de progresso e desenvolvimento”, escreveu ele.
Sabia tudo o papa Francisco…
Hoje já temos alguns autores que oferecem como solução o decrescimento, o que faz muita gente torcer o nariz. Kohei Saito é um desses autores. Ele tem apenas 37 anos, portanto um legítimo representante da geração Y, e no livro “O Capital no Antropoceno” faz coro ao papa Francisco em sua Encíclica. Para ele, a atividade ilimitada do capitalismo é incompatível com os recursos naturais, que não são ilimitados.
Pelo que se percebe no IPM, já há um forte pensamento neste sentido entre a parcela da população que foi entrevistada. E isso é bom. Dialoga, inclusive, com a proposta do governo do presidente Lula, de investir agora na pesquisa de petróleo para poder ter recursos e sair da era dos fósseis. É o que o papa Francisco chama de “outra modalidade de progresso e desenvolvimento”.
E como, de falta de dados e informações a gente não morre nesse período de COP30, acaba de sair outra pesquisa, realizada pelo Instituto Ethos em parceria com a GlobeScan, que dialoga com o que estamos refletindo aqui. Segundo o estudo, somente 41% das empresas produzem relatório formal sobre riscos climáticos, enquanto 65% não acessam financiamento climático. Apenas 31% afirmaram desenvolver ou apoiar iniciativas voltadas à transição justa, enquanto 16% disseram estar em fase de planejamento e 61% não sabem ou não contam com políticas que envolvem essa temática.
A pesquisa, na íntegra, só vai ser divulgada hoje à noite lá em Belém. Mas o teaser já nos leva a perceber que sim, o setor produtivo, apesar de muito barulho que faz em propagandas, ainda precisa trabalhar mais para enfrentar a mudança do clima. O próprio Caio Magri, presidente do Instituto Ethos, fala sobre isso no release que a organização distribuiu para os jornalistas:
“As empresas precisam se responsabilizar, pois são importantes não apenas em termos de adaptação técnica e operacional, mas também no que diz respeito à influência sobre políticas públicas, engajamento com a sociedade e inovação para enfrentar a mudança do clima. Por isso é tão necessário que o setor empresarial tenha metas nítidas de mitigação e adaptação climática”.
Vou continuar atenta para trazer notícias fresquinhas por aqui. Mas, gente… vocês não imaginam como é difícil fazer essa escolha. Tem muita notícia. E quem lê?
