E eis que os riscos climáticos se fizeram sentir, de maneira trágica e novamente no Sul do país, dando materialidade às questões que começarão a ser debatidas na COP30, que começa hoje em Belém. Por conta de um tornado, seis pessoas morreram e mais de 600 ficaram feridas em Rio Bonito do Iguaçu, Centro-Sul do Paraná, segundo a reportagem publicada no G1. As imagens mostram casas destelhadas, imóveis danificados, árvores caídas, postes de energia no chão.
Era um ciclone, que ajudou a formar um tornado, e que assustou até o meteorologista Braun. Segundo ele, em 23 anos de profissão, esse foi o evento mais forte que presenciou. E está categorizado como EF3.
Neste post, que escrevi e publiquei no mês passado, eu conto que a carta de número 8 escrita pelo presidente da COP30, André Corrêa do Lago, divulgada no dia 24 de outubro, foca em adaptação. Ele defende que só assim será possível “aproximar o risco climático da vida cotidiana das pessoas”.
Adaptação pode ser mais uma dessa palavras que só ambientalistas entendem o significado quando aplicada às questões climáticas. Mas é muito mais fácil de entender do que se imagina. E tem a ver com justiça social e climática.
Vamos imaginar que muita gente que sofreu pelas famílias das vítimas da tragédia no Sul e pelas perdas materiais, não conecta o evento climático – que não é um desastre natural – às mudanças climáticas. Essa falta de conexão pode ser porque a pessoa não acredita mesmo no que diz a Ciência, e aí não há muito a fazer. Mas também pode ser porque o tema está – ainda! – distante do dia a dia, como alerta Corrêa do Lago.
Há tempos os ambientalistas se perguntam o motivo desse distanciamento. O pensador britânico Anthony Giddens, que em 2009 escreveu “A Política da Mudança Climática”, chegou a criar uma teoria que chamou de “Paradoxo de Giddens”, na qual sustenta que as pessoas têm dificuldade em agir contra perigos que não são imediatamente visíveis, como o aquecimento global.
Dá para entender. A vida já está difícil hoje, como ainda arranjar tempo para preocupações futuras? E, sobretudo, como se ocupar de questões cujas soluções dependem muito mais de líderes mundiais e empresas do que do cidadão comum?
Chegamos ao ponto. Adaptação é política pública, tem que ser vista assim, como diz também o relatório da Conferência das Partes (UNFCCC) que acabou de ser publicado elegendo o tema adaptação como primordial. E isso depende da vontade de quem está à frente da cidade, do estado, do país. E depende do meu, do seu, do nosso voto consciente.
Vou dar um exemplo bem próximo aos moradores do Rio de Janeiro. A cidade foi atingida pelo fim do tornado que assolou o Sul. Desde sábado (8), aqui está ventando bastante, chovendo muito. Nada que se compare ao problema que os gaúchos estão sofrendo, mas que também tem causado danos.
O maior estrago para os cariocas foi a queda de árvores. Isto é um assunto sério, e que tem tudo a ver com adaptação. As árvores urbanas não podem ser negligenciadas. Muitas foram plantadas de maneira totalmente equivocada, suas raízes se espalham pelo asfalto, pela calçada, ficam frágeis e caem com ventos fortes. A prefeitura precisa investir pesado, fortemente, com muito afinco, no cuidado com essas árvores. E mais: tirar uma e plantar outra! Porque precisamos das árvores também para nos adaptarmos a outro sério risco climático: as ondas de calor.
É apenas um exemplo. É preciso um olhar minucioso para cuidados com os territórios urbanos. Já somos 56% de moradores de cidades no mundo, e esse número tende a aumentar. Administrar cidades em condições de risco climático como vivemos, e viveremos cada vez mais, quer dizer investir prioritariamente em torná-las adaptadas a tais riscos.
Adaptar é fazer justiça social também. Deslocar pessoas que moram em locais de risco de enchente ou de queda de encosta, construir lugares seguros para essas pessoas. Cuidar do lixo para que as águas possam fluir, plantar muitas árvores para que o solo possa absorver parte dessas águas. Enfim, há um cabedal de iniciativas.
Contratar shows com artistas pop não faz parte desse programa. Não resisti à provocação.
Adaptar-se à vida sob risco climático é, com certeza, muito mais chato do que viver como se os perigos estivessem longe, lá no fim do século. Mas é a realidade, e os moradores da cidade vão acabar agradecendo, talvez nas urnas. Os cientistas do Painel Intergovernamental de Mudanças do Clima (IPCC na sigla em inglês) que se debruçam voluntariamente para pesquisar esse risco já fizeram sua parte. Não faltam alertas em seus relatórios, ano após ano. E não é raro ouvir deles uma expressão que deixa transparecer surpresa sempre que os dados mostram que os riscos climáticos estão acontecendo muito mais cedo do que se pensava.
A bola está com aqueles que elegemos. E, é claro, a responsabilidade também é nossa, no momento de eleger. Pensa bem: quantos candidatos apresentam plataformas nas quais as questões climáticas têm protagonismo?
A COP30 certamente vai chamar esse tema, já que adaptação está no radar.
Vamos acompanhar.