Em priscas eras falavam-se, entre os que estudam desenvolvimento sustentável, sobre a necessidade de mitigação. Acompanho o movimento de empresas, líderes e sociedade civil desde o início do século, quando me tornei editora do “Razão Social”, caderno do Globo, praticamente o primeiro a se dedicar ao tema. Mitigar os impactos era a palavra de ordem, o que direcionava as instâncias para a necessidade de baixar a produção, já que se trata de reduzir os danos ao meio ambiente.

O movimento se arrefeceu. Parece não ter soado bem a uma civilização que não está ainda inteiramente convencida de que é preciso uma grande concertação, uma mudança radical em nosso jeito de ser, de estar no mundo.
E agora estamos indo em frente com a adaptação.
O último relatório da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima, também conhecida como UNFCCC, lançado no dia 21, ou seja, a 20 dias da COP30, mostrou que países estão acelerando a implementação dos Planos Nacionais de Adaptação (NAPs). Segundo o documento, até 30 de setembro de 2025, 144 países já haviam iniciado a elaboração de seus NAPs, e 67 nações em desenvolvimento — entre elas, 23 dos países mais pobres e 14 pequenos estados insulares — enviaram oficialmente seus planos à UNFCCC.
O que muda na vida prática dos cidadãos? O estudo mostra que os países apontam a equidade de gênero, a participação comunitária e a redução de vulnerabilidades como pontos fortes nesses planos. Soa interessante.
“O avanço dos sistemas multirriscos de alerta precoce — já presentes em 119 países — tem melhorado diretamente a segurança das populações. Ações locais nos setores de agricultura, saúde e planejamento urbano aproximam a resiliência climática das necessidades cotidianas, ajudando as pessoas a se preparar e se adaptar a um clima em rápida mudança”, diz o relatório.
E hoje mesmo, portanto a 18 dias da COP30, o presidente André Corrêa do Lago divulgou sua oitava carta à comunidade internacional. O tema é adaptação.
Tenho colecionado as missivas virtuais de André Corrêa do Lago. Gosto delas sobretudo porque têm um tom nada burocrático e convidam a refletir. Esta oitava carta não é das mais inspiradas – ele costuma filosofar mais – mas traz dados importantes, como do Índice Global de Pobreza Multidimensional de 2025, publicados pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento em 17 de outubro.
O estudo revela a situação do mundo hoje, considerando o que importa, que são as pessoas. 1,1 bilhão de pessoas, de um total de 6,3 bilhões em 109 países, vivem em pobreza multidimensional aguda – mais da metade delas crianças. Desses 1,1 bilhão, 887 milhões vivem em regiões que já enfrentam ao menos um grande risco climático, e 309 milhões enfrentam três ou mais riscos simultaneamente.
Escreve o presidente da COP30 à comunidade:
“As pessoas não falam em siglas; falam de casas inundadas e colheitas perdidas, de economias locais em colapso após tempestades, de escolas e hospitais destruídos, de mulheres liderando as respostas comunitárias. Por trás de cada história está a mesma realidade: os impactos climáticos estão corroendo conquistas de desenvolvimento, ampliando desigualdades e empurrando milhões de pessoas de volta à pobreza”.
Ele defende a adaptação para, entre outras coisas, “aproximar o risco climático da vida cotidiana das pessoas”.
Andre Corrêa do Lago divulgou sua carta hoje às 11h, quando eu estava assistindo ao encontro “COP30 Amazônia – Resiliência Climática, o desafio da adaptação às mudanças do clima”, organizado pelos jornais O Globo e Valor Econômico e a rádio CBN, em um restaurante no bairro do Flamengo. Lá passamos pouco mais de duas horas refletindo sobre a adaptação. As jornalistas Daniela Chiaretti e Ana Lúcia Azevedo fizeram a mediação em duas mesas, com alguns especialistas.
Afinal, o que é adaptação?
Adaptar é se preparar para o que vem por aí. Preparar escolas para que elas ofereçam conforto térmico aos seus alunos e professores. Preparar espaços públicos para que eles igualmente ofereçam conforto. Preparar cidades, plantando muitas árvores, ajudando as pessoas a fazerem telhado verde, criar oásis para servir de descanso às pessoas em dias com ondas de calor.
Inamara Mélo, diretora do Departamento de Políticas de Adaptação e Resiliência da Secretaria Nacional de Mudança do Clima do Ministério do Meio Ambiente, contou que Entre as medidas presentes nas agendas do Ministério do Meio Ambiente está o AdaptaCidades, que visa apoiar dois mil municípios até 2035 com a facilitação de acesso a financiamento climático.
“Precisamos virar a chave e ampliar o engajamento das pessoas em relação a essa temática no Brasil”, disse ela.
Quando saí de lá decidi caminhar pelo Aterro, pelas ruas até o Largo do Machado. Fui imaginando como seria o mundo adaptado às questões climáticas. Algumas coisas que me ocorreram:
. Ruas com menos carros porque as pessoas praticariam mais a mobilidade ativa – bicicleta ou a pé – para deslocamentos. E bons, excelentes, transportes públicos, seja veículo leve sobre trilhos, metrô, ônibus elétrico;
. As escolas têm que ser aclimatadas, mas isso não quer dizer uso de ar condicionado, senão adeus adaptação. É preciso fazer obras, alargar muito as janelas, tirar aquelas grades e plantar muitas árvores no entorno de cada escola;
. De tantos em tantos quarteirões, um oásis. Com direito a água de graça e a jatinhos de água fria para refrescar. Sob árvores, claro;
. Nas ruas, em dias de muito calor, as pessoas deveriam se vestir de roupas leves, de linho, nada de poliéster. E chapéus. Temos que voltar a usar chapéus;
. Se ainda existirem moradores em situação de rua, a eles deverá ser dado água constantemente.
Tomara que, como deseja o presidente da COP30, haja uma cooperação internacional neste sentido. Confesso que acho mais viável. Enquanto isso, vamos desmamando do petróleo, mas como uma grande concertação, não apontando o dedo uns para os outros, denunciando este ou aquele país, mas percebendo que, para que o petróleo suma de nossas vidas, nós também vamos ter que colaborar. Mudando radicalmente nosso modo de vida.
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