Sem rodeios

Não quero ser arauto de más notícias, mas quero, como sempre, trazer dados importantes para a nossa reflexão cotidiana pós senso comum, se me permitem a expressão quase neologista. Ou despertar outros sentimentos, ampliar pensamentos – “Pensar com uma mentalidade alargada significa treinar a imaginação para sair em visita”, diz Hannah Arendt.

 Ou, como disse certa vez o engenheiro de sistemas Brad Werner em um encontro da American Geophysical Union, em São Francisco, sobre o acelerado esgotamento de recursos naturais impetrado pelo nosso sistema de produção e consumo atual, “a única coisa científica a fazer é se revoltar”*.

Bem, mas vamos direto à notícia: um estudo divulgado no jornal britânico The Guardian, com análises de 25 anos, mostra que compensações de carbono, como as que vêm sendo feitas mundo afora, não conseguem reduzir o aquecimento global “devido a problemas sistêmicos intratáveis”. Leia-se: excesso de emissões de gases do efeito estufa provocadas pelo nosso sistema de produção e consumo “as usual”.

Os empresários, a indústria, os diplomatas e negociadores das COPs, os líderes (não todos, mas…) têm se esforçado bastante, e disso ninguém tem dúvida. Mas, segundo Stephen Lezak, coautor do estudo, não está sendo bastante eficaz, pelo menos não em larga escala.

“Precisamos parar de esperar que a compensação de carbono funcione em larga escala. Avaliamos 25 anos de evidências e quase tudo até agora falhou”, disse ele à reportagem do jornal.

Outra pesquisa publicada na revista Nature Communications, abrangendo 14 estudos sobre 2.346 projetos de mitigação de carbono e 51 estudos que investigaram intervenções de campo semelhantes implementadas sem a emissão de créditos de carbono, descobriu que menos de 16% dos créditos de carbono investigados mostraram reduções reais nas emissões de gases de efeito estufa.

“Os mecanismos de crédito de carbono precisam ser reformados fundamentalmente para contribuir significativamente para a mitigação das mudanças climáticas.”, conclui o estudo encabeçado por Bento S. Probst, mas que envolveu outros nove pesquisadores.

Na lista de problemas apontados pelos pesquisadores e que levam à inoperância dos sistemas de créditos de carbono, há construções irregulares de parques eólicos e plantio de árvores que, depois, são incendiadas para abrir mão para o progresso.  

Isto quer dizer que não devemos mais expandir nossos mecanismos de compensações? Não. Mas quer dizer que precisamos parar um pouco de fazer isso de maneira irrefletida, ampliada, para ganhar terreno nas tecnosoluções para o aquecimento.

Donna Haraway, Anna Tsing, o japonês Kohei Saito, são apenas alguns dos pensadores da atualidade que estão chamando atenção para a inocuidade de processos que não olham de frente para o problema. Enquanto continuarmos a produzir e consumir do mesmo jeito, vamos ter que explorar os bens naturais até que deles não reste mais nada.

*A informação está na página 96 do livro “Ficar com o problema”, de Donna Haraway (N-1 Edições)

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About ameliagonzalez848

Produtora de conteúdo. Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho, um cachorro.
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