
Antes que as imagens e histórias das redes sociais me capturem, quero dividir com vocês momentos sensíveis que vivi ontem, tarde de sabadão, um tempo que fiquei – como dizer, para vocês se lembrarem? – vivendo, sentindo, me deslocando.. longe do celular. Lembram-se como era?
Começou em Botafogo, no Cinearte de Viver, que meu filho Pablo organiza na Casa Anthropos, uma das sedes do Instituto Anthropos de Psicomotricidade. O filme da vez – é sempre um por mês – foi “Anselm”, de Win Wenders. A proposta de assistir ao filme e depois debater o tema em roda de conversa é muito boa. Porque não se sai matutando sozinha ou em par. O encontro faz com que os pensamentos fluam, se distanciem, se aproximem, e vira uma grande troca, não um debate. Como diria Hannah Arendt, debates cerceam o pensamento, o bom é ampliá-los.
“Anselm Kiefer”, o artista muito bem documentado por Wenders, transformou a tristeza e os horrores da guerra em arte. O filme é sensível, bonito, retratando o sofrimento dos judeus na época do nazismo.
Na época do nazismo? Na época da guerra? E não estamos nesta época? Não vivemos eternamente numa época de guerra? Israel hoje impõe aos palestinos um sofrimento que, se difere do passado, é porque podemos assisti-lo ao vivo e em cores. Outro povo em sofrimento hoje é o da Ucrânia. Quantos horrores, quando dinheiro gasto para matar pessoas, quantos patifes crueis que se tomam por líderes. Acaso isto é novo?
Que se consiga transformar este horror em arte. Criar é o que vai poder nos salvar no cotidiano, espanando o que “está dado”, fazendo contato com o entorno, com o que está próximo. Pintando, bordando, cantando…
E por falar em cantar. Vinha eu alimentada com esses pensamentos a me embalar o caminho de volta para casa, eu e Beto, meu shih tzu, quando fui arrebatada por uma música deliciosamente cantada. Aqui mesmo, quase na esquina, no Esperança Eco, um dos restaurantes charmosos que floreiam nosso entorno, a cantora uruguaia Orieta e seu trio coloriam a noite.
E o cenário mudou completamente. Já era eu, a dançante, adorando ouvir os acordes românticos de Orieta, muito bem acompanhada pelos seus músicos. E Orieta dança, se move, chama as pessoas para curtirem a música. Eu e Beto nos metemos. Comprei uma cerveja, estava gelada e desceu muito bem, ajudando a tornar meus movimentos mais elásticos, a fazer fluir ainda mais meus pensamentos.
E Orieta cantou “Bella Ciao”, com toda a seriedade que a canção merece. Originalmente, foi uma música cantada pelas trabalhadoras rurais quando seguiam para o campo na Itália, muito peso e dor. Na Primeira Grande Guerra, virou canção de protesto, e assim seguiu, como símbolo da resistência italiana contra o fascismo na Segunda Guerra.
Mas ali, na esquina iluminadinha do meu bairro, cercada por pessoas alegres, o canto evocava o momento que estamos vivendo. E foi muito bem-vindo, aplaudido e dançado. Por todos nós.
Foram poucos minutos, porque Veronica, a dona do Esperança, faz questão de terminar cedinho a música, a fim de não incomodar a vizinhança que, legitimamente, quer descansar. Mas eu curti cada minuto. Segui caminho de volta, caminhando com Beto e ainda dançando um pouco pela rua. Estava solta, nutrida com arte.
E, bem de levinho, engatei mentalmente outra canção, talvez dedicada a engravatado(a)s que rendem louvor ao deus mercado e que hoje estão começando a ter que prestar contas à Justiça no Brasil. “Quem vai colar os tais caquinhos?” (música “Pra começar”, de Marina e Antônio Cícero).
Foi um bom sábado.