Muros contra o mar. Quem vai conter a humanidade?

Acabo de assistir, no portal G1, à reportagem do “Fantástico” deste domingo (4) sobre a muralha que o Japão está construindo para conter tsunamis. A reportagem lembra o terrível desastre de Fukushima após o terremoto em 2011, conta sobre a triste história de uma cidade que nunca mais se reergueu. E fala sobre a pressão que alguns países – Estados Unidos entre eles – fazem em prol da energia nuclear. Será preciso ter fontes para aumentar a energia num mundo que só faz criar formas – IA, por exemplo – que demandarão cada vez mais.

Enquanto assistia à reportagem, lembrei-me da história de Fudai, que reportei no próprio G1 quando fui colunista do site – Nova Ética Social era o nome da coluna. Dando o devido crédito, achei importante resgatar aqui essa história para os meus leitores. Segue abaixo:

“Era uma vez um prefeito de uma cidade japonesa com cerca de 30 mil habitantes chamada Fudai. Quando foi eleito, na década de 70, Kotaku Wamurapôs uma ideia na cabeça: no seu mandato, ele iria construir um muro tão alto que protegeria sua cidade de qualquer tsunami. Wamura não conseguia parar de pensar nos horrores causados pelas ondas enormes que varreram seu município em duas ocasiões distintas: 1893 e 1933. A cidade, que basicamente vive do turismo e das algas que os pescadores buscam no mar, ficou praticamente soterrada pelas águas e muita gente morreu. O prefeito, que era um jovem idealista quando ocorreu a segunda tragédia, não queria que isso acontecesse enquanto fosse ele a administrar Fudai. E o muro foi erguido.

O povo de Fudai, que fica a cerca de 500 km de Tóquio,não ficou muito contente durante a obra, que durou cerca de 12 anos e gastou 20 milhões de libras. Muita gente criticou, dizendo que era dinheiro gasto à toa, que não iria resolver o problema, questionaram valores e intenção.Wamura não quis só um muro, mas construiu também imensos painéis que podem ser levantados para permitir que o Rio Fudai esvazie para deixar mais espaço para o mar e, assim, bloqueie as ondas. Os proprietários das terras que tiveram que ser realocados para a construção protestaram. Mas Wamura estava tão seguro de si que conseguiu convencer a todos. E a estrutura de concreto terminou de ser construída em 1984, por um valor que chegou perto de 4 bilhões de ienes.

Wamura morreu em 1997, aos 88 anos. Mais de uma década depois, em 2011, quando um imenso tsunami varreu o Japão, matando quase 18 mil pessoas em todo o país, os ventos e as ondas golpearam fortemente a praia de Fudai, na enseada na cidade, e barcos foram destruídos no porto. Mas na aldeia nenhuma casa foi destruída, não houve uma morte. Passada a tormenta, a cidade em romaria foi ao túmulo de Wamura agradecer e deixar flores para o ex-prefeito.

Talvez esta história tenha inspirado a construção dos atuais muros que estão sendo construídos no Japão, como uma forma de tentar evitar que outro tsunami aterrorize a região como aconteceu há sete anos. As paredes têm 12,5 metros de altura e substituíram os quebra-mares, que com o tsunami mostraram-se ineficazes. Em toda a costa japonesa há agora cerca de 395 quilômetros de muros de concreto, construídos por 6,8 bilhões de dólares, para tentar barrar as águas do mar do Japão caso elas, de novo, sejam insufladas pelos ventos a ponto de se tornarem perigosas aos humanos.

Em 2011, algumas ondas chegaram a 30 metros de altura. Será, então, que muros de “apenas” 12 metros vão conseguir barrar o fenômeno? Segundo Hiroyasu Kawai, pesquisador do Instituto de Pesquisa do Porto e do Aeroporto em Yokosuka, disse ao jornal britânico “The Guardian”, mesmo que o tsunami seja maior em altura, o muro terá o efeito de atrasar as inundações, talvez garantindo também mais tempo para a evacuação das pessoas.

Assim como aconteceu no tempo de Wamura, agora também tem muita gente contra a construção das paredes. Quer seja porque enfeia espaços que têm vocação turística, quer seja porque o governo deixou de reconstruir algumas edificações importantes pós-tsunami e priorizou a verba para erguer os muros, o fato é que há cidadãos tristes com tantas edificações anacrônicas na paisagem japonesa. Há quem diga que os muros se parecem com uma prisão, e eu não posso discordar.

Em Fudai, cidade de Wamura, muitos ainda se lamuriam.

“Todos aqui viveram com o mar e do mar, através de gerações. O muro nos mantém separados dele, e isso é insuportável” , disse Sotaro Usui, chefe de uma empresa de abastecimento de atum, à reportagem do “The Guardian”.

O risco, dizem especialistas que se opõem ao projeto, é que os muros podem acabar dando às pessoas uma falsa sensação de segurança. Outros discutem o impacto ambiental que tanto concreto já trouxe ao país. Em Iwanuma, por exemplo, o prefeito da cidade preferiu substituir o muro cinza por uma barreira feita com uma espécie de cerca viva, ou seja, florestas plantadas ao longo da costa em locais altos que poderiam barrar as águas.

Em outros lugares do mundo os humanos também precisam se proteger contra a fúria das águas do mar quando ventos as deixam violentas. E, como os cientistas já se cansam de provar, o abuso do uso dos combustíveis fósseis pela humanidade deixa uma chance enorme de que mais e mais eventos como esse aconteçam.

Na Holanda, em Roterdã, o Maeslant é um imenso portão que foi instalado em 1997 na via fluvial que conecta a cidade ao Porto, no Mar do Norte. Pode se fechar se as ondas começarem a se elevar muito. A expectativa é que só se feche de dez em dez anos. Até agora, funcionou em 1997 e 2007.

A barreira está conectada a um sistema de computadores que funciona da seguinte maneira: com ondas no Mar do Norte acima de três metros de altura ela se fecha automaticamente. Mas todo o processo é acompanhado por funcionários vigilantes, que avisam aos navios com quatro horas de antecipação. Estive em Roterdã em 2010  e pude visitar o local onde fica a grande barreira. Conversei também com os funcionários responsáveis por avisar aos navios. O que observei foi um senso tremendamente responsável e de seriedade no trabalho de todos.

Não é para menos. Trata-se de um processo de adaptação necessário para se viver em grandes cidades costeiras. Mas, sabem o que destoa totalmente desse tipo de atitude? Construções feitas à beira-mar, como a Ciclovia Tim Maia, por exemplo. Ou o que as autoridades do Principado de Mônaco, país onde há a maior concentração de bilionários por centímetro quadrado, pensa em fazer: permitir a construção de ilhas artificiais no mar para caber mais bilionários no território. Todos querem Mônaco, sobretudo porque lá se paga poucos impostos. O príncipe Albert 2º é contra a construção, o que nos deixa uma dose de esperança de que tal aberração não seja levada adiante.

E assim caminhamos.”

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About ameliagonzalez848

Produtora de conteúdo. Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho, um cachorro.
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