Pensamentos florescentes do xamã Kopenawa, agora em documentário inédito

A câmera desliza devagar, num ritmo diferente daquele no qual nos acostumamos em tempos tão rápidos. Assim, sem pressa, as imagens vão  mostrando para o telespectador um mundo diferente, uma rotina distante da nossa, mas que faz parte de nossa essência. Estamos vendo de perto, quase como invasores, uma das aldeias da Terra Indígena Yanomami – que se estende por Roraima e Amazonas, no Brasil e na Venezuela. Se a tela exalasse cheiro, certamente estaríamos sentindo o odor humano que sobe das muitas redes instaladas na imensa casa coletiva de Watoriki.

O xamã Davi Kopenawa no documentário com seus pensamentos. Foto de divulgação

O som é local, difuso, de pássaros misturados ao vozerio da criançada brincando. O documentário “Watoriki – Conversa com David Kopenawa”, de  Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha, presenteia a audiência com essas imagens da aldeia antes da primeira fala do xamã David Kopenawa. É inédito e vai estrear amanhã (18) no Canal Curta!. A minha primeira vontade, quando comecei a assistir, foi quase  pedir desculpas pela invasão, tamanha a intimidade que se passa a ter com a rotina dos indígenas ianomami.

Quem já leu “A Queda do Céu – palavras de um xamã yanomami”, escrito por Kopenawa e Bruce Albert, vai ter a sensação de que puseram imagem no livro. De certa forma, é isto mesmo. Kopenawa fala todo o tempo, contando, como fez com Bruce Albert, muitas da sua história rica de vida. O muito interessante, no caso do documentário, é que o xamã, que quase nunca se comunica na língua dos brancos, de vez em quando fala em português, misturando um pouco as palavras.

A casa coletiva da aldeia Yanomami de Watariki. Foro de divulgação

Logo de cara, a pergunta feita por Kopenawa, sentado em seu habitat, no meio de uma natureza pujante que o recebe bem mas que a nós, urbanos, repele,  faz a gente se mexer na cadeira: “Por que os brancos querem nos maltratar?”

Em vista do que estamos assistindo, dos eventos climáticos cada vez mais intensos associados às atividades humanas, na verdade eu penso que nós também estamos sendo maltratados. No caso dos Yanomami, porém, como de resto de todos os povos indígenas, os efeitos são sentidos na base. Não vamos nos esquecer que a própria ONU os considera guardiães da floresta.

Como tal, é muito difícil estarem lutando contra garimpeiros ilegais, por exemplo, ou com estradas que cortam suas terras. Sem falar na luta que foi para a homologação de sua terra, conseguida apenas em 1992.

Kopenawa é um líder que sempre defendeu a floresta, e ele explica: “Foi por minha mãe e pelo meu pai que eu defendo a floresta”. O pensamento do xamã vai florescendo em todo o documentário, com sua voz doce e enérgica. Ao fundo, imagens que nos conectam com o mundo entremeado de natureza, com crianças vivendo livremente. Mas sem romance ou glamour: é uma vida plena, em conexão direta com o que pode machucar, ferir.

A câmera vai nos levando por trilhas no meio da floresta, acompanhando crianças que usam facões e com eles se safam de perigos. A não alienação de humanos com todos os outros seres vivos fica assim escancarada. O respeito, a certeza de que dali vem a sobrevivência. E Kopenawa avisa:

“Yanomami é gente; yanomami é povo; yanomami tem família; yanomami tem filho; yanomami tem criança; sente fome, chora, fica triste, preocupado. Pensando como resolver os problemas”.

E ele lista os problemas, que não são poucos:

“O   que vai acontecer? Onde vamos viver? Onde vamos beber água?”

Dá para entender, profundamente, esse grito pela sobrevivência. Assim como se percebe na fala de Kopenawa o misto de desconfiança e menosprezo que os indígenas têm pelos brancos. Foram eles, afinal, que levaram para seu mundo as doenças que os matam. E são eles também que destroem a floresta que é sua vida.

O Governo Federal tem ajudado os Yanomami com doação de cestas básicas, o que é muito bem vindo. Daqui a alguns dias, será entregue a cesta de número 160 mil.  Por outro lado, dá uma tristeza danada perceber que essa iniciativa só é necessária porque a verdadeira fonte de alimentos deles está sendo dilapidada pela ação humana.

Já no fim do documentário, Kopenawa descreve como tem sido sua vida de viajante, levando mundo afora a história de sua aldeia. Tornou-se um xamã mundial, desconcertando a gente com ilações tão férteis quanto evidentes. Quando viajou ao Reino Unido, deparou-se com crianças comendo lixo e se perguntou:

“Por que os brancos não compartilham a sua comida e deixam criança comer lixo?”

A outra indignação do xamã é com relação ao tempo. “Por que os brancos seguem o horário com tanta pressa?”. Lúcido, ele mesmo explica, novamente de maneira perturbadora e definitiva, a dificuldade que tem em se fazer ouvir pelos brancos:

“Palavra não é mercadoria. Por isso eles (os brancos) não param para ouvir os yanomamis”.

Vale a pena assistir. O Curta! vai transmitir também em horários alternativos: 19 de abril, sábado, às 2h10 e às 16h15; 20 de abril, domingo, às 21h20; 21 de abril, segunda-feira, às 16h10; 22 de abril, terça-feira, às 10h10.

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About ameliagonzalez848

Produtora de conteúdo. Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho, um cachorro.
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