Comecei meu relato sobre a reportagem na Ilha Grande de trás para frente porque, como disse, meu interesse maior são as histórias das pessoas. Mas outros seres vivos merecem atenção: vieiras, ostras e algas. Vidas que não têm a promessa de estabilidade, como diz outra escritora que anda me acompanhando os dias, Anna Tsing, em seu livro “O cogumelo do fim do mundo”. Pensei muito em suas filosofias durante a visita ao laboratório do Instituto de Ecodesenvolvimento da Baía de Ilha Grande (IED-BIG), ciceroneados pelo biólogo e diretor técnico Renan Ribeiro.

Mas esta história tem início com uma precariedade: as vieiras, antes abundantes na Ilha Grande, estão escasseando. Motivos para isto há aos montes, desde os barcos que chegam em disparada, maculando seu habitat, passando pela poluição dos mares até ondas de calor, a pesca predatória. Sabemos bem como os humanos conseguem pôr a perder muitas vidas desde a revolução industrial. Mais ainda com a globalização, que passou a exigir tudo em escalas grandiosas.
São tempos para se pensar em adaptação. “Viver com precariedade requer mais do que revoltar-se contra quem nos colocou nessa situação…precisamos reativar a imaginação”, escreve Anna Tsing.
O dinheiro dado pela Prio, sempre via Funbio, incrementou o laboratório do IED, que agora está criando berçários de vieiras e ostras para lançá-las ao mar já em condições de superar os muitos obstáculos à sua vida. As sementinhas passam por algumas etapas, encontram sempre água extremamente limpa e vitaminada no laboratório, agarram-se e crescem seguras em redes chamadas lanternas, feitas de Netlon.
Aqui, uma ironia que retrata bem nosso estágio atual civilizatório: Netlon é uma substância que precisa do petróleo para ser produzida, o mesmo combustível fóssil que pode causar a morte das vieiras, ostras e mariscos que o laboratório salva.
É preciso estar em contato para reativar a imaginação, como sugere Tsing, e se adaptar. Contato é uma palavra latina, que quer dizer toque, convívio, relacionamento. É bem diferente do estado de alienação que nos envolve a todos nas megalópoles, pelo menos a maioria de nós que busca e precisa, legitimamente, estar a salvo de outras maneiras. E vamos nos alienando do ambiente que nos cerca.
As vieiras vão crescendo e os técnicos precisam estar atentos para mantê-las dentro das lanternas. A certa altura, muitos dias depois, elas passam a estar prontas para a reprodução. Cutuca-se o cantinho da concha e elas se abrem. É lindo de ver. Muitas seguem dali para a mesa, servem-nos como proteína.
Mais adiante fizemos contato com Eduardo Filho e Felipe Barbosa, também da Ambig, que me apresentaram ao mundo das algas. Eles mantém uma fazenda marinha de algas – também com recursos da Prio – e praticam a algicultura. Fiquei sabendo que são seres fotossintéticos, ou seja, organismos que produzem seu próprio alimento através da fotossíntese, um processo que converte energia solar em energia química. Servem para muita coisa, podem nos ajudar de diversas maneiras, até para cosméticos. Ganhei a chance de pegar e acarinhar um molho de algas. Experiência quase tão inesquecível quanto pisar na lama de um mangue.

A velha fábrica, hoje laboratório
Nossa próxima parada foi em novo laboratório, e esta é outra bela história de criação humana. A principal fonte de renda para os habitantes da praia de Matariz foi, durante muito tempo, a Kamome fábrica de salgar sardinhas construída por japoneses da família Ueti. Cerca de trinta anos se passaram, quando a atividade começou a dar sinais inequívocos de que, sem a estação de tratamento adequada, estavam colaborando terrivelmente para a poluição do mar. A fábrica fechou em 1994, talvez não por acaso dois anos depois da ECO92, conferência de meio ambiente que pôs holofotes em muitos impactos ao meio ambiente. E a edificação ficou ali, sendo aos poucos destruída pela maresia.
A ideia de restaurá-la surgiu e foi impulsionada – novamente com a parceria do Funbio e recurso conseguido por edital do TAC Frade da Prio. O projeto que seduziu os analistas foi construir ali um laboratório de mexilhões, vieiras e ostras e capacitar jovens da região para fazer uma espécie de berçário artificial, sustentando as sementes dos animais de maneira que eles conseguissem sobreviver até irem para o IED, que visitamos primeiro. A fábrica foi reinaugurada no fim do ano passado. Fomos recebidos pelo oceanógrafo Julio Cesar Alves, que está à frente do projeto:
“Os projetos do Funbio começaram a mudar o cenário e a dar mais ânimo à região. A ideia inicial era criar aqui o Bijupirá, conhecido como o salmão brasileiro, mas depois ficou decidido que o laboratório seria reservado para a produção de vieiras. Nós produzimos aqui as sementes que seguem para o laboratório do Instituto de Ecodesenvolvimento, na Ambig”, disse ele.
A visita continua
Matariz é uma comunidade de pescadores tranquila, com pouco mais de 200 moradores. Ficamos hospedados numa pousada bonitinha, numa vila de casas bem cuidadas, embora pobres. Uma energia que deve ser padrão das regiões pesqueiras, com turismo na alta temporada e muito sossego no resto do ano.
Além da fábrica, numa espécie de coworking, a edificação mantém também o pessoal da Marulho, que se autointitula “iniciativa de impacto socioambiental”. Bia e Lucas fundaram em 2019 depois de fazerem contato com um dos maiores problemas para os peixes da região: as redes de náilon abandonadas por pescadores matavam muitos seres marinhos. “Verdadeiramente presentes” (olhem aí Donna Haraway de novo dando rumo aos meus pensamentos), Bia e Lucas se entrelaçaram com alguns moradores e começaram a fazer de tudo com aquelas redes. Hoje estão lançando uma sandália bem bonita. Se você, caro(a) leitor(a), já encontrou produtos com a inscrição “Eu já fui rede”, saiba que vem de lá, do cantinho simpático da praia de Matariz.
O projeto emprega pessoas e salva peixes. Foi preciso imaginar, executar, se consorciar e não replicar o velho modelo de ganância e acumulação. Dá para distribuir o suficiente para se manter vidas com dignidade.
E assim chegamos ao fim da estada. O calor permanecia, e só encontraríamos a frente fria que os fluminenses esperavam dois ou três dias depois. Infelizmente, uma quantidade excepcional de chuvas – os cientistas já avisaram que daqui para frente todos os eventos climáticos serão extremos – desabrigou muita gente em Angra dos Reis, município ao qual a Ilha Grande pertence.
São problemas sem fim, que nos deixam às vezes com um desalento doloroso. Sabemos que vamos ficar com eles, não tem outro jeito.
*Amelia Gonzalez viajou a Ilha Grande a convite da Prio
