Na Ilha Grande, histórias de vidas entrelaçadas com a natureza*

Fazia muito calor. Mesmo com aquele mundo de águas em volta, a sensação térmica era elevada, incomodava. Por volta das 8h fomos encontrar o grupo de marisqueiras na Praia Saco do Céu, que fica na Enseada das Estrelas. Eu estava na Ilha Grande, em Angra dos Reis, com colegas jornalistas a convite da empresa de petróleo Prio, interessada em mostrar o que fez para cumprir o Termo de Ajuste de Condutas (TAC) imposto pelo MP Federal por conta de derramamentos de óleo em 2011 e 2012 na Bacia de Campos, quando as operações ainda eram da Chevron.

Porto de Matariz, Ilha Grande. Foto: Amelia Gonzalez

Já o meu interesse, ali, era ouvir histórias de pessoas que convivem intensamente com a natureza, que vivem de seus bens. Extrativistas orgânicos, por assim dizer.  E, como sói, são justamente aquelas que mais sentem os efeitos devastadores das mudanças do clima, resultado dos impactos que a humanidade está causando ao meio ambiente. São tempos perturbadores e é preciso dar voz a quem está “verdadeiramente presente”, como diz a filósofa e zoóloga Donna Haraway no livro “Ficar com o problema”.  É dessa forma que se pode evitar pensar com a cabeça no futuro (“tecnocismos”) ou no passado (“como era bom quando o mar e o ar eram limpos”).

Durante dois dias visitamos alguns dos projetos que a empresa ajudou com recursos, entre eles duas fazendas marinhas. E ouvi relatos de pessoas que foram beneficiadas por esse dinheiro, já que a escolha da Prio foi espalhar mais a verba do que centralizá-la em uma grande organização.

Ilha Grande e toda a sua majestosa quantidade de águas. Foto de Amelia Gonzalez

A Ilha tem várias enseadas, e seus habitantes vão se organizando em grupos, entrelaçados, criando formas de melhor viver. O livro “Narradores das estrelas – Histórias de Ilha Grande”, feito com o recurso do TAC,  mostra esse entrelaçamento de forma poética até. A publicação relata trechos da vida de 23 moradores do Saco do Céu, num desenho que os organizadores decidiram chamar de mapa. As falas são publicadas in natura, com quase nenhuma revisão, e trazem relatos fiéis ao mundo em que vivem, que pode ser harmonioso, frutífero, avassalador e estéril. Ali quem manda é a natureza.

Turismo Comunitário

No segundo dia da nossa estada na Ilha acordamos bem cedinho para conhecer o projeto Turismo Comunitário. Alguns minutos de voadeira nos separavam da praia de Matariz, onde estávamos hospedados, à outra praia, que fica na região Saco do Céu, onde estariam nossos entrevistados. Pouco antes de chegar à margem, o timoneiro diminuiu a marcha para não perturbar os mariscos, vôngoles e ostras. É assim que deve ser feito, mas infelizmente o padrão não é mantido por todos os barcos.

O jovem caiçara Marcos Vinicius Corecha já nos esperava, como um bom guia turístico. Com 21 anos, ele está cursando Ciências Biológicas mas, para além da graduação acadêmica, Marcos tem uma vivência prática, gosta do lugar e cria rumos, se importa, faz contato. Fala em “mapeamento dos saberes da Enseada das Estrelas” com respeito àqueles que já estão ali há muito tempo. Com o recurso destinado pela empresa, que chegou via edital no Funbio,  há um ano ele e outros companheiros criaram o “Turismo de Base Comunitária Enseada das Estrelas e Suas Raízes”, que já tem sido bastante procurado por quem quer conhecer histórias e culturas do local por seus mestres e jovens.

Um dos roteiros inclui café da manhã tradicional na comunidade, conversa com mestres do local e visita a um cerco flutuante, arte de pesca que é importante ferramenta de manejo sustentável. Os pescadores selecionam apenas os peixes para o consumo, e devolvam ao mar os demais. 

Na mesma enseada, fomos apresentados às marisqueiras, outra atividade que faz parte da cultura local. Jaisa dos Santos Assis, neta de Maria Nascimento, filha de Lindalva e mãe de Taís, todas marisqueiras, foi nossa guia, e as mulheres já estavam colhendo os mariscos, o que fazem com as mãos, pés na lama e na posição de cócoras.

O mangue estava à minha frente e me oferecia uma experiência nova: andar com os pés enterrados na lama que serve de berço a muitas vidas. Fiquei em dúvida, mas decidi encarar. A sensação é estranha, o caminhar precisa ser lento, qualquer escorregão leva ao chão o incauto, sujando de lama tudo o que carrega. Enquanto eu me equilibrava em passos bêbados, Jaisa ia contando a saga das marisqueiras:

“Não temos mais tantos mariscos, em parte por causa dessas lanchas que chegam carregando areia, mexendo no fundo. Antigamente nós comprávamos e vendíamos para os restaurantes da Ilha, mas hoje quase nenhum deles compra. Preferem comprar de que compra daqui e leva até eles”, disse Jaisa.

Jaisa fala dos atravessadores. Lembro-me de uma viagem que fiz a uma comunidade de açaizeiros no Pará onde a queixa era a mesma. No final das contas, essas pessoas cumprem um papel na roda da economia, já que os donos de restaurantes não querem perder tempo com o deslocamento. Mas cobram caro por isto.

Jaisa prossegue, contando também que tudo mudou nos anos 1980, quando a Ilha Grande passou a ser considerada Área de Proteção Ambiental Estadual de Tamoios.

“Plantávamos a mandioca, a banana, o café. Aqui tinha fábrica de farinha, era uma ação comunitária. Hoje não podemos mais tirar uma árvore, como a Bacuruvu, que servia para fazermos canoa e andar pelo mangue sem importunar a vida dos mariscos. O Inea vem, multa”, conta ela.

As marisqueiras criaram uma Associação de Moradores e Pescadores da Enseada das Estrelas (AMPEE) em 2013 para edificar uma integração entre elas pela proximidade geográfica. Nisso, criaram também o mais importante: relações de amizade e solidariedade. O resultado é uma organização local afável que conseguiu, com muita luta e resistência, transporte marítimo para levar as crianças à escola, um posto de saúde, equipamentos públicos.

A manhã já ia pelo meio, o sol castigava ainda mais,  quando Marcus nos levou para apresentar seu tio, misto de historiador, engenheiro, pescador e carpinteiro, Pedro Paulo Ferreira, 60 anos. Ele estava em sua oficina a céu aberto e nos mostrou uma pequena embarcação que estava acabando de construir. Pedro Paulo também tem lembranças doces do passado:

O mestre Pedro Paulo sendo entrevistado por mim em Matariz, praia de Ilha Grande. A foto é de Custodio Coimbra, jornalista que estava no tour para a impresna

“O que mais me faz falta, daqueles tempos atrás, antes de virarmos Unidade de Conservação, é a liberdade que eu e todo mundo aqui tinha. Podíamos plantar, tirar uma ou outra árvore, pescávamos nossos peixes. Fazíamos farinha da mandioca, tomávamos nosso próprio café”.

Pergunto se ele está sentindo os efeitos do aquecimento global, ele responde afirmativamente. Pergunto se ele reconhece que houve abusos e que tais abusos podem ter causado o aquecimento, ele me diz ok, mas…

“Olha em volta e veja essas mansões milionárias que estão sendo construídas, algumas até com heliponto. Pode imaginar quantas árvores foram cortadas para isto? Agora eu pergunto: cadê o Inea, que não vem multar, prender, como faz conosco quando tentamos tirar uma árvore que seja?”, perguntou.

Eu não tive resposta a sua pergunta.

Antes de nos despedirmos, Pedro Paulo fez questão de nos mostrar a canoa caiçara, transporte característico da região no tempo em que as árvores Bacurubu eram sortidas e podiam ser arrancadas pelos locais.

Não consigo me solidarizar com Pedro Paulo na história da Bacurubu, mas respeito muito sua experiência de vida e estou com ele na luta pela igualdade de direitos. O Inea não pode escolher a quem multa.

Encerro este texto com o pensamento de Stefano Mancuso, a maior autoridade em neurobiologia vegetal. Em “A Nação das plantas” ele alerta:

“O homem, ainda que se comporte como tal, não é de modo algum o dono da Terra, mas somente um dos seus condôminos mais desagradáveis e molestos […] conseguiu alterar tão drasticamente as condições do planeta que o tornou um lugar perigoso para a sua própria sobrevivência”.

A viagem continuou, e na próxima quarta-feira eu conto mais.

*Amelia Gonzalez viajou a Ilha Grande a convite da Prio.

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About ameliagonzalez848

Produtora de conteúdo. Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho, um cachorro.
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