‘Ficar com o problema’ inspira presidente da COP30 em carta pública

O presidente da COP30, André Corrêa do Lago, publicou uma carta pública na semana passada. É de praxe que os presidentes de COPs façam isto, com o objetivo de se apresentarem e divulgarem o que o país espera oferecer para o encontro. Mas Corrêa do Lago foi além dos dados e da demonstração de ações, que são muitos. No seu texto, o embaixador faz algumas reflexões filosóficas sobre o que a humanidade está vivendo, em tempos de pressão climática. E é neste ponto que vou me deter, para compartilhar algumas impressões com vocês.

Uma bela imagem do Rio Amazonas. COP30 será na região. Foto de Amelia Gonzalez

 A linha mestra, que costura todo o texto da carta, é uma exortação à comunidade internacional, para que enfrente coletivamente o perigo dos eventos causados pelas mudanças climáticas. O sentido de urgência, que já se tornou comum nos discursos das COPs, está presente.

“Devemos enfrentar a mudança do clima juntos e reativar nossas habilidades coletivas e individuais de resposta: nossas “responsa-habilidades”, afirma Corrêa do Lago.

Quem já leu “Ficar com o problema”, da filósofa e zoóloga estadunidense Donna Haraway, sabe que esta expressão – ‘responsa-habilidades’ – é criação dela. Confesso que fiquei feliz com a citação na longa carta de 12 páginas, embora não tenha referência à criadora do termo. Importante saber que Haraway defende que “é preciso que pratiquemos a respons-habilidade por meio da prática da fabulação”. Verbo que também pode ser entendido como sinônimo de criar.

Não me passou despercebido, portanto, que Corrêa do Lago talvez tenha lido Haraway e se sentiu, de alguma forma, sintonizado com ela. A carta do embaixador diz que a COP30 deve ser o momento da “esperança e das possibilidades por meio da ação – jamais da paralisia e da fragmentação”. E Haraway, que transita pelos “mundos humano-animais”, diz que “precisamos uns dos outros em colaborações e combinações inesperadas, em amontoados quentes de composto”.

São duas formas diferentes de dizer que “sozinhos, com nossos  diferentes tipos de especialidade e experiência, sabemos ao mesmo tempo muito e muito pouco”.

A carta de Corrêa do Lago conclama a comunidade internacional a se juntar ao Brasil “em um mutirão global contra a mudança do clima, um esforço global de cooperação entre os povos para o progresso da humanidade… dos governos nacionais aos municipais, dos mercados de capitais internacionais às pequenas lojas de bairro, dos principais agentes tecnológicos aos inovadores locais, dos conhecimentos acadêmicos aos tradicionais”.

Neste trecho, lembrei-me de outra pensadora que também dialoga, mesmo que timidamente, com os pensamentos do embaixador: Anna Tsing, de “O cogumelo no fim do mundo”. Mas, aqui, será preciso um exercício de conectar ideias.

Haraway e Tsing têm em comum não o derrotismo, como muitos desenvolvem ao ouvir uma retórica já tão batida nas COPs. As duas autoras apresentam uma revolucionária ideia de identificar o problema – sem, contudo, amplificá-lo – e viver com ele, fabulando modos de bem viver.

Para cada pessoa, bicho ou planta, há de ter um meio diferente de conseguir estar no mundo e ficar com o problema. Tsing diz que é preciso reativar a imaginação, e me proponho a pensar de forma compartilhada, neste espaço, dizendo que, para mim, ficar com o problema é, justamente, viver com o tanto que eu tenho hoje, muito menos do que já foi, mas de forma digna e bem.

A fonte de Haraway é a relação entre espécies:  bichos, plantas, homens. “Ficar com o problema requer estabelecer parentescos estranhos”, diz ela, enquanto me pego pensando em Fernanda e na barriga da pedra. “Sozinhos… sabemos muito e muito pouco”. E então sucumbimos ao desespero ou à esperança, diz ela.

Faz sentido, para vocês,  costurar o pensamento de Corrêa do Lago sobre a COP30 com filosofias tão revolucionárias como de Haraway e Tsing? Para mim, faz. É assim que eu consigo ler com propósito.

Agrego Tsing a esta linha de pensamento. A antropóloga, também estadunidense, alerta: “O problema é que o progresso parou de fazer sentido”, e afirma que o rei estava nu, alusão à forte conexão da palavra progresso com “sempre algo melhor adiante”. O “adiante” esbarra num sistema que não foi contemplado no texto que o  embaixador dedica à humanidade.

Corrêa do Lago prefere chamar de ‘arquitetura financeira”, mas evoca esperança quando diz que ela pode ser “reformada e aprimorada” para acabar com a desigualdade, o câncer do mundo (meu atributo). E continua dando asas à imaginação quando diz que a COP30 pode registrar o nascimento de “uma única nova revolução industrial que seja consciente em relação ao clima”.

“O reconhecimento da necessidade de agir o mais rápido possível para enfrentar a urgência da mudança do clima deve inspirar novas atitudes. Devemos reconhecer que questões consideradas “problemas” podem emergir como importantes “soluções”, diz o embaixador.

Para isso, seria bom ouvirmos Tsing. É genial a ideia da autora, ao destrinchar à luz da ecologia a expressão alienação, apontada por Marx em sua teoria econômica como uma situação típica do capitalismo, em que as pessoas são separadas dos bens que produzem. É um menosprezo aos entrelaçamentos, às composições.

“O sonho da alienação inspira a modificação da paisagem, na qual se isola apenas aquele recurso que se considera importante; tudo o mais se torna ervas daninhas ou descarte […] Quando aquele recurso específico já não pode mais ser produzido, o lugar é abandonado. A madeira foi cortada; o petróleo acabou; o solo das plantações já não sustenta mais as lavouras. A busca por ativos é retomada em outro lugar”.

Isto só é possível por conta da alienação. Porque nos transformamos, também, em ativos. Ficar com o problema é perceber que o mundo não será salvo. Ficar com o problema é viver no presente, e aí a adaptação, palavra tão repetida nas COPs, faz sentido. Encerro com Corrêa do Lago e seu chamamento:

“O realismo climático exige que a adaptação esteja na vanguarda e no centro de tudo o que fazemos como governos, setor privado, membros da sociedade civil e indivíduos. Uma grande inflexão sobre adaptação na COP30 será a porta de entrada para alinhar nosso processo multilateral com a realidade cotidiana das pessoas: a adaptação climática é o veículo para o cuidado e o reparo rumo à transformação coletiva”.

Mas vou continuar pensando. Se você quiser se juntar, escreva no comentário.

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About ameliagonzalez848

Produtora de conteúdo. Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho, um cachorro.
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