Debates no U20, caminhada que acabou em samba e muito o que pensar e aprender por aí

Se eu não tivesse acabado de ler Donna Haraway em “Ficar com o problema”, e prestado atenção ao trecho em que a filósofa alerta: “Sozinhos, com nossos diferentes tipos de especialidade e experiência, sabemos ao mesmo tempo muito e muito pouco, e então sucumbimos ao desespero ou à esperança”, talvez eu não tivesse percebido a moça que se balançava na rede de barbante. Era sábado, estava nublado, e eu estava nas Docas do Rio de Janeiro, aquele ponto da cidade que me sugere pensamentos de ida sem volta. E lá estava acontecendo, até ontem, o G20 Social, criação do governo Lula para dar ao menos um toque de realidade a uma reunião de líderes globais sempre tão distante do povo.

Eu estava só, mas pulsando com o ambiente ao redor.

A rede onde se balançava a moça fazia parte de um espaço, nas Docas, que funcionou como um ponto de descanso. Ela se ajeitou de um modo engraçado, pernas para cima, celular nas mãos, conectada ao espaço das nuvens e, talvez, desconectada do entorno. Assim somos, ultimamente, uma civilização quase digital. Eu disse quase, porque ainda há muitos pontos de resistência, graças!

Eu tinha acabado de assistir a um encontro de especialistas, dos muitos que aconteceram no Armazém da Utopia, na sexta (15) e sábado (16), no âmbito do Urban 20, braço do G20 Social. Em pouco mais de uma hora apresentaram uma pequena mostra do livro que foi lançado numa parceria entre algumas instituições. Quem me convidou foi o Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), uma dessas instituições, e que promoveu a roda de conversas com oito dos autores do livro “G20 e desenvolvimento sustentável urbano: governança, finanças e políticas” editado por Pedro Vormitagg, Marianna Albuquerque e Eugénie L. Birch. Pode ser acessado aqui, gratuitamente, mas está em inglês.

O livro é um compilado de sugestões para adequar os espaços urbanos ao bem estar das pessoas.

Um dos palestrantes, e autor de um dos artigos do livro, foi Andrew J. Kruczkiewicz, professor na Universidade de Columbia, chamou minha atenção quando falou sobre interação. Sinônimo de convívio, contato, diálogo, tudo aquilo que nos simboliza, a nós humanos e a muitos outros seres vivos, como mostra Haraway.

 Em parceria com quatro alunos, o professor Krucziewicz  colheu dados junto ao Centro de Operações Rio (COR) para estudar até que ponto as atuais estratégias de redução do risco de desastres são eficazes, no contexto da cidade do Rio de Janeiro e em toda a área urbana interligada.

Krucziewicz confessou: “O Rio é um lugar de muitas complexidades”. Em seu artigo, ele diz que é preciso desenvolver uma agenda também focada em “assentamentos informais do Rio de Janeiro particularmente vulneráveis aos eventos extremos climáticos”. Enquanto isso, lá fora, moradores de favelas se faziam presente, atuantes, com reivindicações importantes por melhor qualidade de vida no G20 Favelas. Fizeram falta ali, no diálogo, interagindo.

O professor concluiu: “Quem eu posso convidar para ajudar a interagir e captar a dinâmica das populações que nós defendemos? As mais vulneráveis estão incluídas nos dados que coletamos?”

De novo Haraway visita meus pensamentos. Ela se mostra impaciente com o que chama de “futurismos”. E elenca um tipo de futurismo menos eficaz, aquele defendido por especialistas que acreditam que as coisas “só importam se funcionam”, ou pior, “que a única coisa que importa é que eu e meus colegas especialistas trabalhamos para encontrar uma solução”. Se o professor  pensava assim, deixou de pensar no momento exato em que conheceu o Rio, esse lugar que chamou de complexo, e é mesmo.  Aqui, muita coisa importa, e Krucziewicz parece ter percebido isso.

Tomara que os outros especialistas que dividiram o espaço de debates tenham tido tempo para fazer um passeio, como eu fiz. Andei bastante pelas Docas, até porque não tinha outro meio de sair dali, já que as duas estações VLT foram fechadas. E fui percebendo o que respiramos diariamente nessa complexa cidade, a cor da diversidade. Povos indígenas, povos das favelas, vendedores que conseguiram um espaço para mostrar seus produtos a uma plateia tão variada.

 E lá estava a moça se balançando na rede, provando e comprovando a complexidade, com ar de liberdade.

Megalópolis são diversas mesmo – não é privilégio do Rio –  e serão cada vez mais. Hoje a população urbana mundial é de 55%. A estimativa, segundo as Nações Unidas, é que serão 68% em 2050. Respeitar a diversidade e interagir com tanta gente não é um bordão de nossa era, mas um imperativo. O “fenômeno” do crescimento populacional (entre aspas porque, de fato, não é nenhum fenômeno) foi motivo de preocupação já em 1972, quando países se reuniram em Estocolmo para o primeiro encontro sobre meio ambiente.

“A taxa média atual de crescimento do mundo, que é de 2%, dar-nos-á 7 bilhões de habitantes no ano 2000 e o bilhão seguinte chegará em menos de sete anos”, diz um trecho do livro “Uma Terra Somente”, que descreve a ata da Conferência de 1972 e que está ocupando também lugar de destaque aqui na estante.

 Nada como conhecer o futurismo que preocupava a cabeça dos especialistas há meio século. Na época ainda não havia o IPCC (criado em 1988), grupo de cientistas que, de tempos em tempos, nos informa sobre a situação climática e alerta sobre os eventos extremos que vamos ter que suportar. E não sabiam  também, os estudiosos da época, que os Gases do Efeito Estufa (GEE) poderiam fazer a Terra se aquecer de tal forma a torná-la insuportável para os humanos.

A respeito do efeito dos gases, há apenas uma breve menção no texto do livro de meio século atrás – “A poeira e as partículas na atmosfera podem também alterar a temperatura da Terra de modos inimagináveis” – e eu me pergunto por que pouco foi feito para evitar? Hoje, 70% dos GEE são produzidos nas cidades, causando secas, tempestades e doenças. Não por acaso, os ambientes urbanos têm sido foco de interesse cada vez mais genuíno nos grandes eventos.

O Urban20 é uma prova dessa inquietação.

Volto ao encontro dos especialistas. Perdoem-me a ordem anárquica do texto, mas ela acompanha os pensamentos diversos que me açodaram, tomada por tantos estímulos, conversas, imagens.  Outro autor que dividiu seus pensamentos no espaço da Utopia foi H.E. Fahd Al-Rasheed, autoridade responsável pela capital do Reino da Arábia Saudita e com uma experiência de duas décadas em administrar cidades naquele continente longínquo.

Jovem, de fala dinâmica, Al-Rasheed criou um certo movimento entre os jovens da plateia. Chamado de “Sua Alteza” pela mediadora (por respeito diplomático), Al-Rasheed perguntou quantos ali sonhavam em trabalhar numa administração municipal. Ninguém levantou a mão.

Para “Sua Alteza”, que foi  CEO do Grupo King Abdullah Economic City, essa falta de empatia com um serviço tão fundamental é incômoda. Ele mesmo passou vinte anos administrando cidades sem ter sido treinado para isso, confessou.

“Não existe um mestrado em administração de cidades, mas existem os Mestrados em Administração de Negócios (MBA). Temos que pedir às universidades que desenvolvam esse programa”, disse Al-Rasheed.

É mesmo um assunto que merece toda a atenção, e por isso eu optei por acompanhar aquela conversa, entre as outras quatro que aconteciam ao mesmo tempo no espaço. Não me arrependi, foi útil, e tenho agora dados atuais e diversos que me ajudam a pensar sobre cidades sustentáveis.

“Aprender a partir do acontecimento e criar a partir dele”, como escreve Haraway. A filósofa e zoóloga estadunidense nos convida ainda a “criar, fabular, para não nos desesperarmos”. Assumo a tarefa para não me submeter a pensamentos pesados diante das guerras, da retomada de um presidente negacionista na nação mais rica do planeta, de tanta miséria espalhada. Vou criando.

E caminhando. E cultivando a “virtude selvagem da curiosidade”, como ensina Haraway. Nesse sentido, fico feliz com tantos eventos que estão acontecendo ao mesmo tempo (filhotes da COP29 em Baku e do  G20 aqui no Rio). Por todo lado tem-se feito o necessário link entre questões climáticas e pobreza.

Vi uma enorme fila que se formava em frente ao edifício A Noite, icônico da Praça Mauá. Pessoas estavam sendo revistadas – é legítimo, tem que ter segurança com tantas autoridades na cidade – para entrarem no espaço do G20 Social. Um enorme palco estampava em letras garrafais o compromisso que o presidente Lula vai exigir dos líderes que começam a chegar hoje à cidade. Uma aliança global contra a fome, a pobreza e a desigualdade, que pretende atingir milhões de humanos no mundo todo que hoje sofrem desse mal, enquanto apenas 2.781 pessoas acumularam uma fortuna incalculável e vergonhosa. A aliança é também pela justiça climática, porque quem sofre mais com os eventos extremos são os pobres.

Mas estamos no Rio de Janeiro, certo? Como não poderia deixar de ser, minha caminhada terminou justamente quando a banda que acompanharia Zeca Pagodinho no mega show noturno começou a ensaiar um belo samba. E fui me deixando levar por um batuque delicioso. Quando percebi, estava até ensaiando uns passinhos, como as ainda poucas pessoas que já se espalhavam por ali após serem revistadas.

Uma cidade onde há sempre uma bela surpresa à espera, onde as pessoas interagem, se tiver uma administração preocupada com os eventos climáticos, respeitando os limites impostos pela natureza, pode poupar vidas e estragos materiais. Mas precisa cuidar de muitos outros problemas, como a miséria que se espalha pelas ruas.

 Que venham mais pensadores em nosso auxílio, para alargar nossos pensamentos. Serão sempre muito bem vindos.

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About ameliagonzalez848

Produtora de conteúdo. Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho, um cachorro.
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