Frio, vulcão, terremoto, risco de afundar: a Islândia me faz pensar como é bom morar no Brasil

Marcelo está rodando o mundo com a parceira e causando em mim ora inveja, ora alívio por não ser eu a enfrentar os desafios que uma viagem dessas pode trazer. Mas provoca também reflexões. Uma delas compartilho com vocês, na esteira do término da Conferência das Partes 28, que acabou em 13 de dezembro, em Dubai.

Primeiro, vou compartilhar as minhas impressões sobre o que ficou decidido no texto final da Conferência, conseguido, como sempre, a duras penas pelos 193 países que se sentam anualmente, convocados pela ONU, para debater sobre o clima. Em poucas palavras: foi um passo à frente na direção de se tentar a transição energética para conter o aquecimento global.

Mas um passo não é um salto, como bem disse Andrew Deutz, Diretor Geral de Política Global e Financiamento para a Conservação na The Nature Conservancy.

Esta foto é reprodução do jornal islandês Mbl.is / Kristinn Magnússon

Em linhas gerais, o documento acordado entre as partes traz uma linha ligeiramente nova, falando muito mais em adaptação do que em mitigação dos impactos causados pelos humanos ao meio ambiente. Adaptação se traduz, por exemplo, no plano que a Prefeitura do Rio está anunciando, de arborizar parques na Zona Norte do Rio. Isto é tentar oferecer bem estar aos moradores no enfrentamento das ondas de calor que vão ser mais intensas e seguidas.

Um momento considerado significativo para os ambientalistas é que, no documento final, os países presentes na cimeira decidiram que é preciso abandonar os combustíveis fósseis. Vocês, caros leitores, podem estar pensando que isto é apenas uma bobagem, uma promessa boba. Mas esta decisão nunca tinha sido conseguida numa Conferência do Clima, daí a comemoração. E daí tais encontros terem tido sempre uma aura de retórica inútil.

O que não ficou decidido em Dubai foi como se dará esta mudança total de consumo. Nem em quanto tempo isto deve acontecer. De qualquer maneira, finalmente se conseguiu ter um registro, assinado pelos países, atestando aquilo que os cientistas vêm afirmando, no mínimo desde 1988, ano da criação do Painel Intergovernamental de Mudanças do Clima (IPCC na sigla em inglês): as atividades humanas causam o aquecimento global com o excesso do uso de combustíveis fósseis.

E é preciso mudar isto. Mas… como?

É claro que há numerosas sugestões sobre a maneira como isto deve acontecer.  Leio muito a respeito e tirei uma conclusão sobre o melhor caminho: ouvir os povos originários. O bizarro é que justamente eles, que já foram chamados de “guardiões das florestas’ pela própria ONU, não têm assento na reunião decisória da Conferência.

Mas hoje vesti a capinha mágica de minha xará Amélie Poulain, e quero pensar que a ficha caiu e que os indígenas vão passar a ter voz.

Uma das premissas dos indígenas é de que é preciso olhar para a natureza como parte do homem. Não por acaso, esta também é a teoria de Stefano Mancuso, escritor e botânico italiano, que tem uma série de livros em que prova, com algumas evidências, que as plantas não sentem, mas pensam. O problema que estamos enfrentando hoje começou a ser criado justamente quando o homem passou a se ver como um ser superior a todos os outros seres vivos do planeta.  Ampliou seus territórios com máquinas e, assim,  eliminou tudo o que tinha à sua frente e servia como um ‘entrave ao seu desenvolvimento’.

A conclusão é tão óbvia quanto parece. Segundo o MapBiomas, os povos indígenas perderam menos de 1% de sua área de vegetação nativa nos últimos 38 anos. Nas áreas privadas, a perda foi de 17%.

Portanto, se alguém pode ensinar como deixar de emitir tantos gases poluentes sem precisar de tecnologias estrambolicas, por óbvio, são os povos indígenas. Como diz Ailton Krenak, o primeiro xamã a ocupar uma cadeira na Associação Brasileira de Letras, as populações indígenas fazem um serviço ambiental melhor do que as unidades de conservação, que precisam manter todo um esquema de fiscalização. As Tis preservam o meio ambiente de graça.

Muito mais foi discutido na COP, algumas novidades surgiram dos debates, entre elas a inclusão da expressão “sistemas alimentares resilientes” no parágrafo sobre adaptação. Para mim, o importante é que, pelo menos aqui no Brasil, a questão sobre os eventos extremos causados pelas mudanças climáticas está, finalmente, mexendo com a opinião pública. Tudo bem que o tema veio à baila por conta dessas ondas de calor que estão nos vitimando, mas não  importa.

Fato é que anteontem (17) foi divulgada uma pesquisa pelo Instituto Datafolha, com dados que mostram que 78% dos brasileiros entendem que as atividades humanas contribuem para o aquecimento global. É um bom caminho para se chegar à necessária mudança de hábitos de consumo.

E aqui eu volto à história do meu amigo viajante e às reflexões que seus relatos têm me propiciado. Eles estão na Islândia, onde no verão a temperatura média varia entre 10 e 14 graus. Lá, praticamente só tem verão (de junho a setembro) e inverno (o resto do tempo).

 No inverno, às 15h já é noite. Deve ser uma luta, por exemplo, para secar uma roupa ou se manter aquecido. A fonte de energia usada na maior parte do país é a geotérmica,  obtida a partir do aproveitamento do calor proveniente do interior da Terra que vai se transformado em eletricidade. Um processo caro e muito barulhento mas, segundo consta, pouco poluente.

Frio, vulcão, terremoto, risco de afundar: a Islândia me faz pensar como é bom morar no Brasil. Será que os habitantes da Islândia – cerca de 350 mil pessoas – temem as mudanças do clima? Ou, muito antes pelo contrário, estão torcendo para que lhes sejam concedidos dias mais quentes?

O país tem um mega dispositivo tecnológico que se destina a sequestrar carbono e faz parte do “Umbrella Group”. Este grupo de onze países (incluindo aí os Estados Unidos e Israel) posicionou-se contrário ao fato de o texto final da COP28 não ter cravado o fim dos combustíveis fósseis, sem mencionar a necessidade de um calendário para isto.

Quando escrevi este texto, o vulcão que hoje está apavorando, com razão, os moradores da cidade de Grindavik, porque decidiu se manifestar depois de 800 anos quieto, ainda não estava tão alvoroçado. Felizmente ninguém se feriu, embora não seja nada fácil imaginar perder a casa e os bens. Bom, aqui no Brasil temos nossos problemas dessa ordem também. E não temos tanta rapidez na hora de consertar as coisas.

Mas, volto à questão: será que a população da Islândia, país com um regime parlamentarista, está interessada em conter o aquecimento? A resposta pode ser sim, considerando que é um país insular e que, como todos os países insulares, está sob risco de sumir sob as águas por causa do aumento dos oceanos.

Tempos difíceis esses que estamos vivendo, não?

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About ameliagonzalez848

Produtora de conteúdo. Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho, um cachorro.
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