“Amelia, você não é mais a mesma!”
Foi uma auto censura, o que é pior do que se eu tivesse recebido a reprimenda de algum amigo ou alguma amiga.
Explico o motivo de tanto rigor comigo mesma. Tinha acabado de assistir a peça ‘Caberá Coragem’, dirigido por Júlio Maciel, que o Grupo Galpão está encenando no Teatro Rival, Centro do Rio, até dia 10. É um show animado, com uma estética muito interessante, com mensagens de repúdio ao sistema capitalista. O “coragem” do título é uma alusão à “Mãe Coragem e os Seus Filhos”, de Bertold Brecht, e o pensamento crítico do poeta alemão permeia todo o espetáculo.
Sim, é um espetáculo. O Teatro Rival, em algum momento, se mostra até pequeno. Não só por causa das estripulias dos personagens, como por conta do som, que fica muito alto, sobretudo para quem está perto do palco. Era o meu caso. Começa aí o caminho para minha autocensura.
Assim que entrei no Teatro, que por sinal está lindo, pedi uma cervejinha para saborear o momento. E o som alto começou a me provocar uma leve sensação de desconforto, que foi se ampliando, não a ponto de não me deixar curtir o espetáculo. Mas, quando os atores chamaram a plateia para interagir, dançando no palco durante o intervalo, eu me acanhei.
Não sou de dizer “no meu tempo’, porque meu tempo é hoje, agora, vivendo a intensidade da vida. Mas reconheço e respeito os limites que o tempo vai impondo ao meu corpo. Se eu tivesse menos tempo de vida, certamente teria pulado para o palco e aproveitado – aí sim! – o som bem alto que impulsionava quem quisesse dançar. Percebi até um casal bem heterogêneo – ele com roupa de executivo, ela bem dançarina – e fiquei pensando que ela o teria animado. Que delícia.
Animação é algo que não falta à festa/espetáculo do Grupo Galpão, e vale a pena assistir. Estamos precisando disso.
Penso que a bronca que me dei na volta à casa veio também na esteira de um certo mau humor provocado pelo absurdo desse alto verão extemporâneo aqui no Rio. Não no Rival, lá estava bem climatizado. Mas o calor está no ar, nos persegue pela cidade, e ainda exalava do chão, das paredes, à hora da saída do teatro, pouco depois das 21h. Parecia que eu estava em Cuiabá, Centro do Brasil. Lá, sim, é que sempre registra as maiores temperaturas. O Rio, gente! O Rio… tinha que ter uma brisa a nos afagar depois de um dia de 40 graus, que hoje já são 50. Não há bom humor que resista.
Está ficando difícil achar graça nas coisas, e aí já traço o bordado do rumo da prosa com meu tema de estudo: as alterações climáticas. Não vou aqui repetir o que os leitores estão lendo diariamente nas telas, nos sites de notícias. Trago apenas reflexões, de uma jornalista que cobre o assunto há vinte anos: sim, em 2003 foi para as bancas o primeiro ‘Razão Social”, caderno que eu editei no Globo por nove anos e que abordava o tema sob todos os aspectos, econômico, social, ambiental.
Quando se começou a falar sobre os impactos do aquecimento global, das mudanças do clima, a expressão mais usada era: “vamos salvar o planeta”. Hoje já se sabe que não é o planeta que precisa ser salvo, porque ele vai dar um jeito de expulsar daqui os seres que cometeram a gafe de não perceber que não são os únicos seres vivos a habitá-lo, e que deveriam ter respeito aos demais.
Reunidos na COP28, na esfusiantemente poluidora e quente Dubai, os líderes de empresas e nações estão tentando chegar a um acordo para minimizar os danos. Mas, vejam bem: o que está feito, está feito. O que estamos vivendo hoje no Brasil, e que a Europa viveu no verão, é o efeito El Niño (aquecimento do Oceano) embalado pelas mudanças do clima. E tudo que vem embalado pelas mudanças do clima fica mais intenso. Vimos isso acontecer, por exemplo, quando a ciclovia irresponsavelmente construída à beira mar carioca enfrentou sua primeira ressaca. Caiu, simples assim.
E vamos continuar usando petróleo, escavando para buscar petróleo? A resposta é uma só: sim. Porque o mundo se fez dessa forma, dependente do petróleo, em meados do século XIX.
E vamos continuar desmatando as florestas? Sim, porque muitos precisam ainda ganhar dinheiro com o que retiram de lá, e não há movimentos verdadeiramente robustos para se mudar isto por enquanto.
Estou sendo pessimista demais? Sim. É o calor.
Como sempre, estamos à espera do documento final da COP. O texto será seguido de comentários de ambientalistas, a maioria dizendo que ‘poderia ser mais ousado, mas que já se adiantou alguma coisa”. É nesse avanço que se aposta, e que as gerações futuras saibam disso. Aparentemente, a humanidade acordou, porque os eventos extremos alcançaram terras mais conhecidas, mais ocupadas pela ponta da pirâmide social.
E sabe quem consegue sistemas naturais e certeiros para lidar com todo esse cenário? Os indígenas. Mas… eles não têm assento na sala das decisões da COP28.
Hoje li um estudo, desses muitos que estão nos ofertando boas informações sobre o clima ultimamente, que dizia que o calor excessivo tem causado um aumento dos casos de suicídios. E hoje também, no supermercado, ouvi de uma senhora um lamento que me comoveu. Disse-me ela: “Se vai ser assim a vida, acho que vou preferir morrer mais cedo. Está muito ruim esse calor’.
Não concordei com ela. Penso que a vida vale a pena de qualquer jeito. Mas me emocionei.
A boa notícia é que já vem uma frente fria, e a partir de amanhã os termômetros vão baixar. Acho que, com a temperatura do corpo um pouco mais sensata, eu teria me aventurado a dançar um pouco no palco do ‘Cabaré Coragem’. Vou guardar essa vontade para a próxima vez.