Tempestade de ideias sobre o valor da vida

Tempestade de ideias sobre o valor da vida

Pesquisa recente feita no Reino Unido mostrou que as árvores em territórios que se tornaram inóspitos  estão se movendo para cima, para regiões mais altas. O estudo concluiu que o fenômeno seria uma espécie de fuga por causa das questões climáticas. É mais ou menos assim: em regiões de muita secura, as árvores estão buscando outro ecossistema para sobreviverem. O movimento, descoberto por pesquisadores da Universidade de Leeds e publicado na edição de 19 de agosto no jornal “O Globo” está preocupando os analistas.

A inquietação dos estudiosos se explica pelo fato de eles considerarem um perigo essa evasão. Ocorre que os animais e as plantas dos locais que estão recebendo as árvores, são mais suscetíveis a alterações no ecossistema. A presença dessas espécies  “invasoras”, “exóticas” à região, pode trazer problemas.

Desde que eu li essa notícia fiquei pensando sobre a vida. Em algum momento até comparei à trágica história dos migrantes que se arriscam em barcos frágeis para fugir de territórios, quer seja por causa de tiranos, quer seja pelo resultado das mudanças climáticas, como seca ou tempestade.

Será mesmo assim tão difícil a convivência entre essas árvores que encontram território menos inóspito para se manterem vivas e as plantas e animais do habitat que as acolheu?  

Ouvindo o podcast “Conversa na rede”, com Aylton Krenak e Eduardo Viveiros de Castro, chamado “Partículas particulares”,  estiquei meus pensamentos. O programa instigou-me a dar um atributo à tempestade de ideias que me seguiu: pensamento selvagem, segundo Viveiros e Krenak.

O antropólogo e o xamã são ligados à terra, aos saberes tradicionais, aos rios, aos bichos. E, no programa de cerca de 45 minutos, conversam sobre vida, sobre futuro, sobre partículas espraiadas por , sobre… sobrevivência. É do que se trata. Aquelas árvores que surpreenderam os analistas da universidade britânico estavam buscando sobreviver. E só um pensamento selvagem, que faz contato com o sensível, pode perceber isso dessa forma.

As mudanças climáticas têm recebido enormes holofotes, sobretudo desde que o velho continente se viu pegando fogo, enfrentando temperaturas inéditas para corpos tão acostumados ao frio. Será que os europeus, sofrendo com o clima, pensam em buscar novos territórios, menos inóspitos? Ou vão tratar de comprar aparelhos de ar refrigerado para continuarem a viver no mesmo local, de maneira mais confortável? Sou capaz de apostar na segunda hipótese, e é claro que essa corrida aos dispositivos aumenta a produção industrial que ajuda a causar mudanças climáticas.

“O capitalismo vive de produções inéditas, sem medir consequências”, disse Viveiros de Castro.

Há solução?

Krenak traz para a conversa uma expressão que usou para titular um de seus livros: o futuro é ancestral. Porque a ancestralidade não é, como hoje muito se propaga, um mundo atrasado, sem brilho, sem bem-estar. No passado até recente não havia aparelhos de celular, internet, os carros eram menos velozes e as redes sociais se faziam no bairro, na esquina. Por isso as pessoas eram infelizes?

Talvez nossos jovens, hoje, diante das notícias reais que mostram as adversidades enfrentadas pela humanidade por causa das mudanças climáticas, tenham mais medo do futuro do que as gerações passadas. Eles vivem numa era das contradições e dos paradoxos, quando sabemos muito e, ao mesmo tempo, muito pouco, como afirma a filósofa e zóologa estadunidense, Donna Haraway, em “Ficar com o problema”, livro que tem sido citado como referência entre vários campos de estudo.

“Sozinhos, com nossos diferentes tipos de especialidade e experiência, sabemos ao mesmo tempo muito e muito pouco, e então sucumbimos ao desespero ou à esperança – e nenhum dos dois é uma atitude sensível (ou sensata). Nem o desespero nem a esperança estão sintonizados com os sentidos, com a matéria conscienciosa, com a semiótica material, com os terráqueos mortais em copresença densa”, escreve ela

 Haverá mundo para as gerações futuras? Esse medo da finitude acompanha a humanidade. Mas as reações são diversas.

“O mundo dos povos indígenas das Américas se acabou em 1492. A chegada dos povos não indígenas ao seu habitat transformou inteiramente seu modo de vida. E nem por isso eles desapareceram”, lembra Krenak.

Segundo a ONU, há hoje 370 milhões de pessoas indígenas no mundo, o que quer dizer mais do que as populações dos Estados Unidos, do México, do Canadá. Eles falam quatro mil línguas diferentes e são 6% da população. Os territórios que habitam guardam 80% da biodiversidade que ainda resta no planeta.

O futuro é ancestral. O passado continha as sementes de possibilidades do futuro, conforme Krenak. Será que o mundo da Ciência vai se encontrar com o pensamento selvagem?

“O capitalismo quer saber quanto mundo ainda resta para ele comer. Os povos tradicionais pensam em qual mundo se pode criar? É possível produzir outros mundos, a vida não está contida no casulo do humano”, disse o indígena.

Xuku Xuku uê é uma expressão indígena que significa vida sempre. A ideia é que a vida é. Ela não será, ela não foi, ela é. Uma lagarta não sabe que vai virar borboleta e uma borboleta não sabe que foi lagarta. O que importa é viver o momento com  a intensidade possível.

Uma ode à vida, portanto. Que a vida passe a ser o valor, ocupando o lugar do ouro e do capital. Mudaria muita coisa nesse mundo.

O estudo feito pela universidade britânica e que me inspirou a escrever recebeu o título de “Global Distribution and Climate Controls of Natural Mountain Treelines” ( “Distribuição global e controle climático de linhas de árvores”, em tradução literal). Como é de praxe no mundo das ciências, só pode ser reconhecido depois de publicado numa revista  científica, no caso a “Global Change Biology  “. Com imagem de satélite, os pesquisadores descobriram que “de 2000 a 2010, cerca de 70% dessas linhas de árvores subiram em média 1,2 metros por ano. A mudança mais rápida foi observada nos trópicos, onde a subida foi de cerca de 3,1 metros por ano”.      

Será a vida falando mais alto? Ou será uma forma que as árvores “acharam” de ficar com o problema? 

Já que falamos tanto em plantas, vale terminar esta reflexão com o pensamento sensível de Stefano Mancuso, uma das autoridades em todo o mundo na área de Neurobiologia Vegetal. Em “Nação das Plantas” (Ed. Pergaminho), de maneira firme, sem vacilar, ele afirma ter uma proximidade com as plantas, de quem se tornou amigo. “A maioria das plantas que nos rodeiam […] são, efetivamente, espécies que, com a domesticação, iniciaram conosco uma relação especial de cooperação”. Assim, com a ajuda delas, o escritor criou uma Constituição das Plantas.

Mancuso certamente não se surpreende com a atitude daquelas árvores que provocaram o estudo. Subir mais para garantir sua sobrevivência só não é mais esperto do que viver em cooperação entre si.

“A cooperação é a força através da qual a vida prospera, e a Nação das Plantas reconhece-a como o primeiro instrumento do progresso das comunidades”, escreve ele.

Cooperar, compor… verbos do futuro ancestral. As árvores sabem muito bem do que se trata.

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About ameliagonzalez848

Produtora de conteúdo. Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho, um cachorro.
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