Na semana do Meio Ambiente, que vai até o dia 9 de junho, eu me reservo o direito de questionar.

E começo questionando o sentido de os supermercados terem ainda tantas embalagens plásticas ao mesmo tempo em que cobram, dos clientes, pelas sacolinhas plásticas que ajudam a carregar as compras. Você pode achar um questionamento mixuruca diante de um evento mundial tão importante, mas eu insisto. É um paradoxo, um dos muitos que povoam nossa era. E não vamos nos livrar dele se não pusermos o dedo na ferida coletiva. É mexendo nas coisas que parecem pequenas que a gente pode alcançar algum êxito em fazer mudanças radicais.
Não estou trazendo o assunto à toa. Na verdade, quem escolheu o espinhoso tópico para povoar nossos pensamentos foi a ONU. Para comemorar o Dia Mundial do Meio Ambiente, 5 de junho, como sempre faz anualmente, ela elegeu como tema “Soluções para a poluição plástica’.
Está na hora, portanto, de tentar não esquecer que existe 1,6 milhão de quilômetros quadrados e 79 mil toneladas de lixo plástico no Oceano Pacífico, segundo os últimos dados fornecidos pela revista Nature. Jogados pela civilização humana. Nessa mesma reportagem, a notícia é de que há vidas se proliferando nos plásticos por nós descartados de qualquer jeito. E essas vidas estão pegando carona para navegar pelo oceano em direção a… sabemos nós?
Desculpe se tirei o prazer do seu café tomado às pressas numa cafeteria do Centro, ou se não levei em conta que é mais cômodo embrulhar o lanche das crianças em sacos plásticos. Ou, ainda, se estou sendo inclemente ao julgar que não dá mais para esquecer a bolsa retornável em casa quando se vai fazer compras. Adoraria dizer que todas essas atitudes nos trariam resultados imediatos, mas penso que a medida de redução deve vir de cima. Meu foco, como se vê no início do texto, é outro.

Para ajudar a formar pensamento crítico – e cobrança – relaciono abaixo alguns dados do site da OCDE que nos lembram que vamos precisar nos empenhar muito para encontrar soluções. Por enquanto, só estamos criando o problema.
- O consumo de plástico quadruplicou nos últimos 30 anos, impulsionado pelo crescimento nos mercados emergentes. A produção global de plásticos dobrou de 2000 a 2019, atingindo 460 milhões de toneladas. Os plásticos representam 3,4% das emissões globais de gases de efeito estufa.
- A geração global de resíduos plásticos mais que dobrou de 2000 a 2019, para 353 milhões de toneladas. Quase dois terços dos resíduos plásticos vêm de plásticos com vida útil inferior a cinco anos, com 40% provenientes de embalagens, 12% de bens de consumo e 11% de roupas e têxteis.
- Apenas 9% dos resíduos plásticos são reciclados (15% são recolhidos para reciclagem, mas 40% são eliminados como resíduos). Outros 19% são incinerados, 50% acabam em aterros sanitários e 22% fogem dos sistemas de gerenciamento de resíduos e vão para lixões descontrolados, são queimados a céu aberto ou acabam em ambientes terrestres ou aquáticos, principalmente em países mais pobres.
- Em 2019, 6,1 milhões de toneladas (Mt) de resíduos plásticos vazaram para ambientes aquáticos e 1,7 Mt fluíram para os oceanos. Estima-se que haja agora 30 Mt de resíduos plásticos nos mares e oceanos, e outros 109 Mt acumulados nos rios. O acúmulo de plásticos nos rios implica que o vazamento no oceano continuará nas próximas décadas, mesmo que os resíduos plásticos mal administrados possam ser significativamente reduzidos.
- Considerando as cadeias de valor globais e o comércio de plásticos, alinhar as abordagens de design e a regulamentação de produtos químicos será fundamental para melhorar a circularidade dos plásticos. Uma abordagem internacional para a gestão de resíduos deve levar à mobilização de todas as fontes de financiamento disponíveis, incluindo a ajuda ao desenvolvimento, para ajudar os países de baixa e média renda a cobrir os custos estimados de 25 bilhões de euros por ano para melhorar a infraestrutura de gestão de resíduos.