Preservar a biodiversidade faz bem, e não é só para o planeta

Um olhar cuidadoso, uma escuta muito atenta, passos curtinhos, silenciosos e, sobretudo, muita leveza. Para observar pássaros soltos em seu habitat, não se deve fazer nenhum movimento brusco. Se a visita for em grupo, é preciso respeitar o espaço e se calar, respirar em consonância com o ambiente em volta. Qualquer solto som pode espantar a preciosidade do momento.

Em um par de horas, aprendi quase tudo isto com o guia Brener Fabres, na Reserva Natural Vale, quando lá estive, em Linhares no Espírito Santo.  Um dos maiores espaços preservados da Mata Atlântica*, a Reserva abriga 402 espécies de aves que vivem soltas, obedecendo às leis da natureza, nem sempre afáveis, mas nunca injustas. Ali não há julgamentos: ganha quem é mais forte.

Foto: Leonardo Meçon / Instituto Últimos Refúgios

No topo da cadeia alimentar das aves que ocorrem na Mata Atlântica temos a Harpia, também chamada de gavião real, nome que os homens lhe dão porque seu aspecto evoca reis e rainhas. Linda, imponente, a fêmea chega a medir dois metros e meio quando abre as asas, e chega a pesar mais de nove quilos. O macho é um pouco menor, mas não por isso menos potente. Essa espécie precisa de proteína animal para sobreviver: macacos, preguiças e ouriços. Sim, deve ser cruel e eu não consigo nem imaginar o momento da caça. Mas assim é a lei dos animais.

Apesar de chegar a medir até um metro de altura e de estar entre as cinco maiores aves de rapina do mundo, a Harpia é discreta. Seu piado inicial é quase confundido com o som de um pássaro menor, até que, segundos depois, ela emite um grito. Embora não seja muito alto, até para os que pouco entendem do riscado é possível reconhecer nesse grito a presença suntuosa de uma ave de rapina.

A Harpia gosta de fazer seus ninhos quase no topo das maiores árvores da floresta, e como sua penugem é cinza e preta, é muito difícil vê-la. Quando não confrontada com situações de risco, ela pode viver até 56 anos. Mas hoje faz parte de uma triste lista de espécies criticamente em perigo de extinção.

E são as atividades humanas o seu maior inimigo. A Harpia precisa ficar esperta contra os caçadores ilegais. E o desmatamento testa suas forças de maneira cruel, porque degrada seu habitat e diminui a sua chance de obter alimentos. Os últimos dados fornecidos pela Fundação SOS Mata Atlântica dão conta de que de 2020 a 2021 o desmatamento na região deu um salto, chegando a 21.642 hectares.

Para sorte de alguns indivíduos dessa imponente espécie que encontram pouso no complexo de cerca de 50 mil hectares de Mata Atlântica preservado composto pela Reserva Natural Vale e pela Reserva Biológica de Sooretama, ali elas estão um pouco mais preservadas dos perigos. Há vigilância que, se não impede totalmente, desestimula ação de caçadores no local. E as árvores são preservadas, berços para seus ninhos.

Jovem de 28 anos, o guia Brener Fabres dedica grande parte de seu tempo a observar e estudar os costumes e os cantos dos pássaros. Numa única caminhada pela Reserva, ao seu lado, fiquei sabendo de muitos nomes, ouvi diversos piares. Aprendi que existe um aparelhinho – que deve ser usado com extrema moderação – que imita um piado para chamar outro pássaro.

Atualmente, Brener está trabalhando numa tese de mestrado sobre a biologia reprodutiva da Harpia. A ave virou seu objeto de estudo, a Reserva se presta como seu campo de pesquisa. Uma concertação que só traz bons resultados. Brener não contém seu entusiasmo quando instado a contar a história da Harpia. Hoje existem cinco casais da espécie sendo monitorados por Brener e outros colegas:

“O primeiro ninho que encontramos aqui na Reserva foi em 2012, mas foi um mistério, porque a Harpia não chegou a chocar e sumiu. Naquela época ainda não usávamos câmera Trap, não fazíamos o monitoramento como fazemos hoje. Quatro anos depois, em 2016, encontramos um novo ninho, e este foi monitorado. Em 2017 apareceu uma Harpia, e achamos que foi aquela que havia sumido. Assim, passamos a ter dois ninhos na reserva, dois casais, em 2019 achamos um terceiro casal e em 2022 encontramos um quarto casal. Em resumo: hoje temos quatro casais aqui na Reserva Vale, e um em Sooretama”, conta ele.

Como é de se supor, um bicho com essa envergadura não se reproduz com facilidade. Primeiro, é preciso achar um canto ideal para o ninho, que tem de dois metros a dois metros e meio. O macho se encarrega dessa tarefa e, depois da cópula, fica abastecendo a fêmea com alimentos.

“Depois da cópula, a fêmea fica cerca de quatro meses totalmente dedicada ao ninho, ela não sai de lá. No máximo, voa até uma árvore ao lado para se esticar um pouco e volta logo. Ele caça, come e traz para ela. Depois que o filhotinho nasce, ela recebe a caça e divide com ele até ele completar dois meses e ter condições para se alimentar sozinho”, conta Brener.

Mas nem sempre dá certo. Poluição e consanguinidade podem estar prejudicando o nascimento dos filhotes, e este é o assunto do estudo de Brener. As Harpias precisam de muito espaço para que os indivíduos se espalhem, senão pode haver cópula entre os da mesma família, o que sugere a má-formação dos fetos.

Seja como for, é com prazer que ouço relatos de estudos que possam concluir o motivo do problema, e mais ainda porque sei que na região da Reserva Natural Vale as Harpias têm campo de sobra para se reproduzirem livremente.

É mais do que tempo de se levar a sério a importância de se preservar a biodiversidade para o próprio bem da humanidade. Organização tradicional no tema, a União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN na sigla em inglês) lista em seu site alguns dos benefícios da biodiversidade, como a regulação do clima, a resiliência ecológica, o apoio aos polinizadores (cruciais para nossa alimentação), e até os benefícios econômicos: segundo a organização, mais da metade do PIB global – cerca de 40 trilhões de libras – depende da natureza.

Não custa lembrar também que durante a COP15 – conferência do clima realizada em Paris, durante a qual se conseguiu o histórico Acordo de redução de emissões de carbono – os líderes assinaram um tratado para proteger 30% da vida terrestre e marinha até 2030.

Dia 22 de maio é o Dia Internacional da Biodiversidade Ecológica. É apenas uma efeméride, que como tantas outras serve para que se ponha holofotes sobre o tema. Concluo minhas reflexões com um dos benefícios listados pela IUCN em prol da proteção da biodiversidade: o bem-estar mental dos humanos. Acima de qualquer outro, este é um sentido que… faz todo o sentido. Alguém já se imaginou num mundo sem bichos e plantas?

A experiência de Brener Fabres dialoga com este propósito de se promover um escudo contra o extermínio de espécies em prol, inclusive, da nossa própria saúde mental. Enquanto falava comigo pelo telefone, do posto de observação na mata onde estava alojado, Brener interrompeu o raciocínio que estava costurando na conversa e, sussurrando, me disse: “Acabo de ver uma anta! Ela está a uns 15 metros de mim. Estou emocionado”.

Fiquei também, é claro, e comemorei, mesmo que à distância. Empolgado com a visão, Brener se estendeu e relatou um dos comportamentos que mais observa nas pessoas que leva a passear na Reserva:

“Observar a natureza dá uma outra perspectiva, tem tirado muita gente da depressão”.

*Viajei para a Reserva Natural Vale a convite do Instituto Cultural Vale, que realiza atualmente no Espírito Santo as exposições ‘O extraordinário universo de Leonardo Da Vinci” e “Memórias do Futuro”

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About ameliagonzalez848

Produtora de conteúdo. Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho, um cachorro.
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2 Responses to Preservar a biodiversidade faz bem, e não é só para o planeta

  1. Avatar de Rosi Rosi disse:

    Uma riqueza da nossa fauna!! Que seja preservada!!

  2. Avatar de Lena Miessva Lena Miessva disse:

    Amélia, é muito bom ler você. Sempre. Estou morando em Portugal e se precisar de algo por aqui, é só ar um alô.

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