Um olhar cuidadoso, uma escuta muito atenta, passos curtinhos, silenciosos e, sobretudo, muita leveza. Para observar pássaros soltos em seu habitat, não se deve fazer nenhum movimento brusco. Se a visita for em grupo, é preciso respeitar o espaço e se calar, respirar em consonância com o ambiente em volta. Qualquer solto som pode espantar a preciosidade do momento.
Em um par de horas, aprendi quase tudo isto com o guia Brener Fabres, na Reserva Natural Vale, quando lá estive, em Linhares no Espírito Santo. Um dos maiores espaços preservados da Mata Atlântica*, a Reserva abriga 402 espécies de aves que vivem soltas, obedecendo às leis da natureza, nem sempre afáveis, mas nunca injustas. Ali não há julgamentos: ganha quem é mais forte.
No topo da cadeia alimentar das aves que ocorrem na Mata Atlântica temos a Harpia, também chamada de gavião real, nome que os homens lhe dão porque seu aspecto evoca reis e rainhas. Linda, imponente, a fêmea chega a medir dois metros e meio quando abre as asas, e chega a pesar mais de nove quilos. O macho é um pouco menor, mas não por isso menos potente. Essa espécie precisa de proteína animal para sobreviver: macacos, preguiças e ouriços. Sim, deve ser cruel e eu não consigo nem imaginar o momento da caça. Mas assim é a lei dos animais.
Apesar de chegar a medir até um metro de altura e de estar entre as cinco maiores aves de rapina do mundo, a Harpia é discreta. Seu piado inicial é quase confundido com o som de um pássaro menor, até que, segundos depois, ela emite um grito. Embora não seja muito alto, até para os que pouco entendem do riscado é possível reconhecer nesse grito a presença suntuosa de uma ave de rapina.
A Harpia gosta de fazer seus ninhos quase no topo das maiores árvores da floresta, e como sua penugem é cinza e preta, é muito difícil vê-la. Quando não confrontada com situações de risco, ela pode viver até 56 anos. Mas hoje faz parte de uma triste lista de espécies criticamente em perigo de extinção.
E são as atividades humanas o seu maior inimigo. A Harpia precisa ficar esperta contra os caçadores ilegais. E o desmatamento testa suas forças de maneira cruel, porque degrada seu habitat e diminui a sua chance de obter alimentos. Os últimos dados fornecidos pela Fundação SOS Mata Atlântica dão conta de que de 2020 a 2021 o desmatamento na região deu um salto, chegando a 21.642 hectares.
Para sorte de alguns indivíduos dessa imponente espécie que encontram pouso no complexo de cerca de 50 mil hectares de Mata Atlântica preservado composto pela Reserva Natural Vale e pela Reserva Biológica de Sooretama, ali elas estão um pouco mais preservadas dos perigos. Há vigilância que, se não impede totalmente, desestimula ação de caçadores no local. E as árvores são preservadas, berços para seus ninhos.
Jovem de 28 anos, o guia Brener Fabres dedica grande parte de seu tempo a observar e estudar os costumes e os cantos dos pássaros. Numa única caminhada pela Reserva, ao seu lado, fiquei sabendo de muitos nomes, ouvi diversos piares. Aprendi que existe um aparelhinho – que deve ser usado com extrema moderação – que imita um piado para chamar outro pássaro.
Atualmente, Brener está trabalhando numa tese de mestrado sobre a biologia reprodutiva da Harpia. A ave virou seu objeto de estudo, a Reserva se presta como seu campo de pesquisa. Uma concertação que só traz bons resultados. Brener não contém seu entusiasmo quando instado a contar a história da Harpia. Hoje existem cinco casais da espécie sendo monitorados por Brener e outros colegas:
“O primeiro ninho que encontramos aqui na Reserva foi em 2012, mas foi um mistério, porque a Harpia não chegou a chocar e sumiu. Naquela época ainda não usávamos câmera Trap, não fazíamos o monitoramento como fazemos hoje. Quatro anos depois, em 2016, encontramos um novo ninho, e este foi monitorado. Em 2017 apareceu uma Harpia, e achamos que foi aquela que havia sumido. Assim, passamos a ter dois ninhos na reserva, dois casais, em 2019 achamos um terceiro casal e em 2022 encontramos um quarto casal. Em resumo: hoje temos quatro casais aqui na Reserva Vale, e um em Sooretama”, conta ele.
Como é de se supor, um bicho com essa envergadura não se reproduz com facilidade. Primeiro, é preciso achar um canto ideal para o ninho, que tem de dois metros a dois metros e meio. O macho se encarrega dessa tarefa e, depois da cópula, fica abastecendo a fêmea com alimentos.
“Depois da cópula, a fêmea fica cerca de quatro meses totalmente dedicada ao ninho, ela não sai de lá. No máximo, voa até uma árvore ao lado para se esticar um pouco e volta logo. Ele caça, come e traz para ela. Depois que o filhotinho nasce, ela recebe a caça e divide com ele até ele completar dois meses e ter condições para se alimentar sozinho”, conta Brener.
Mas nem sempre dá certo. Poluição e consanguinidade podem estar prejudicando o nascimento dos filhotes, e este é o assunto do estudo de Brener. As Harpias precisam de muito espaço para que os indivíduos se espalhem, senão pode haver cópula entre os da mesma família, o que sugere a má-formação dos fetos.
Seja como for, é com prazer que ouço relatos de estudos que possam concluir o motivo do problema, e mais ainda porque sei que na região da Reserva Natural Vale as Harpias têm campo de sobra para se reproduzirem livremente.
É mais do que tempo de se levar a sério a importância de se preservar a biodiversidade para o próprio bem da humanidade. Organização tradicional no tema, a União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN na sigla em inglês) lista em seu site alguns dos benefícios da biodiversidade, como a regulação do clima, a resiliência ecológica, o apoio aos polinizadores (cruciais para nossa alimentação), e até os benefícios econômicos: segundo a organização, mais da metade do PIB global – cerca de 40 trilhões de libras – depende da natureza.
Não custa lembrar também que durante a COP15 – conferência do clima realizada em Paris, durante a qual se conseguiu o histórico Acordo de redução de emissões de carbono – os líderes assinaram um tratado para proteger 30% da vida terrestre e marinha até 2030.
Dia 22 de maio é o Dia Internacional da Biodiversidade Ecológica. É apenas uma efeméride, que como tantas outras serve para que se ponha holofotes sobre o tema. Concluo minhas reflexões com um dos benefícios listados pela IUCN em prol da proteção da biodiversidade: o bem-estar mental dos humanos. Acima de qualquer outro, este é um sentido que… faz todo o sentido. Alguém já se imaginou num mundo sem bichos e plantas?
A experiência de Brener Fabres dialoga com este propósito de se promover um escudo contra o extermínio de espécies em prol, inclusive, da nossa própria saúde mental. Enquanto falava comigo pelo telefone, do posto de observação na mata onde estava alojado, Brener interrompeu o raciocínio que estava costurando na conversa e, sussurrando, me disse: “Acabo de ver uma anta! Ela está a uns 15 metros de mim. Estou emocionado”.
Fiquei também, é claro, e comemorei, mesmo que à distância. Empolgado com a visão, Brener se estendeu e relatou um dos comportamentos que mais observa nas pessoas que leva a passear na Reserva:
“Observar a natureza dá uma outra perspectiva, tem tirado muita gente da depressão”.
*Viajei para a Reserva Natural Vale a convite do Instituto Cultural Vale, que realiza atualmente no Espírito Santo as exposições ‘O extraordinário universo de Leonardo Da Vinci” e “Memórias do Futuro”

Uma riqueza da nossa fauna!! Que seja preservada!!
Amélia, é muito bom ler você. Sempre. Estou morando em Portugal e se precisar de algo por aqui, é só ar um alô.