História, arte e diversão a bordo do VLT na pré-folia do Centro

Uma cidade tão desafiadora como o Rio de Janeiro está sempre convidando seus moradores mais antenados a descobrirem novos caminhos. Na sexta-feira (10) pela manhã, com amigos, peguei um desses rumos que me possibilitou, senão conhecer, mas certamente perceber outros ângulos possíveis das cenas de sempre.

Turistamos pelo Veículo Leve sobre Trilhos, o VLT, que os cariocas, em respeito à sua fama de bem-humorados, batizaram com alguns apelidos. Os mais desanimados o chamam de “trem fantasma”, apelido que vem dos tempos primórdios, quando quase ninguém conhecia e utilizava o transporte. Aos poucos, outro apelido foi ganhando força: “trem da hora do almoço”, apontando sua pouca utilidade para a mobilidade urbana da cidade.

Mas isto é passado. O VLT hoje está sendo bem utilizado.

Para nosso conforto, organizamos o passeio de forma a evitarmos o horário de rush. Mesmo assim, houve ocasiões em que sobravam poucos lugares para sentar nos vagões. Funcionários gentis e bem treinados nos ajudaram a criar uma atmosfera leve, o que nos ajudou a atiçarmos a curiosidade que só se tem como visitantes em cidades estrangeiras.

O céu de verão nos embevecia, mesclando o azul de anil com o cinza das grossas nuvens que anunciavam a chuva do fim da tarde. Fazia um calorão típico de fevereiro. Mas, como o ar condicionado nos vagões é potente, o desconforto da temperatura elevada ficava do lado de fora, e acompanhávamos, dos janelões do trem, a paisagem ora ensolarada ora nublada.

 E é bom saber: a transferência entre linhas do sistema ou nova viagem no mesmo sentido em até uma hora são gratuitas, sempre com a validação do cartão de passagem no ato do embarque. E o cartão é pessoal e intransferível. Sendo assim, é possível fazer um passeio pelas ruas do Centro do Rio por apenas R$ 4,30.

Nossa viagem/passeio se tornou turística, cultural e histórica. Tudo começou quando prestamos atenção ao nome das estações. Praia Formosa, por exemplo. Alguém sabia que existia uma praia, no século XIX, ali onde hoje é a Rodoviária do Rio de Janeiro? A praia se foi, engolida pelo asfalto, pelo progresso, mas agora seu nome virou um dos “pontos finais” das linhas verde e azul do VLT. A linha amarela vai da Central à Candelária*.

Mal eu começava a divagar sobre o impacto do homem no ambiente ao redor, e lá estávamos nós a circular pelo outrora arrabalde aprazível e pitoresco chamado Gamboa. Hoje é um bairro da Zona Portuária, com casas antigas, calçadas estreitas, comércio de baixa renda.

 A volta pela Gamboa desperta reflexões sobre desigualdade social. Afinal, a parada seguinte é a do Morro da Providência: e ficamos pensando como terá sido o acordo entre as pessoas que ali moram e que, de um dia para o outro, passaram a ter um trem passando em sua porta de vinte em vinte minutos.

Como estávamos felizes e de bom astral, preferimos acreditar no melhor. Correu tudo bem, foram todos indenizados, e vida que segue.

Próxima parada: Harmonia. Uma praça tão linda e bucólica, com direito a coreto e tudo! Do outro lado, o Moinho Fluminense, primeira fábrica brasileira de moagem de trigo, construído no século XIX por ordem da Princesa Isabel. E está ali hoje, mostrando-se inteiro, imponente, aos nossos olhares curiosos. Dizem que vai se transformar num espaço multiuso, se der certo o plano de revitalização do Centro do Rio. Oxalá!

De carro, ou mesmo de ônibus, seria difícil fazermos tanto contato com tanta história da cidade. Qual turistas, fomos nos deliciando e esticando a conversa, os pensamentos. Criamos até um conceito: viramos jacobianos!

Jane Jacobs é uma escritora e ativista política norte-americana que escreveu “Morte e vida nas grandes cidades” (Ed. Martins Fontes), no qual faz críticas à política de ocupação dos espaços publicos nos Estados Unidos, década de 50. É um livro que não deve faltar na estante de quem gosta do tema.

Jacobs aposta na diversidade das cidades, o que ela considera a maior riqueza. E é justamente a diversidade o que mais se observa das janelas do trem supermoderno. Gosto, em especial, desse trecho do livro de Jacobs:

“A presença de pessoas atrai outras pessoas, e isto é uma coisa que os planejadores e projetistas têm dificuldade em comprender. Eles partem do princípio de que os habitantes das cidades preferem contemplar o vazio, a ordem e o sossego palpáveis”.

No exato instante em que nos dávamos conta da pluralidade que encanta as cidades, lembramo-nos de Le Corbusier, arquiteto e urbanista suíco, que encabeçou a Carta de Atenas (Ed. USP). A Carta foi escrita por um grupo de arquitetos e urbanistas chamado para reedificar cidades depois das guerras. Enquanto Jacobs se ocupa com pessoas, os arquitetos focaram na arquitetura, nas construções,  como responsável pelo bem-estar e pela beleza das cidades. “Cada indivíduo deve ter acesso às alegrias fundamentais: o bem-estar do lar, a beleza da cidade”, dizem eles.

Naquele momento do passeio, já plenos de boas reflexões, decidimos nos entregar ao prazer da boa comida. Paramos o passeio ali na estação Marechal Floriano, atravessamos o trilho e fomos comer o omelete mais antigo da cidade na centenária Casa Paladino, clássico da boa e velha gastronomia de boteco do Rio.

Custódio Coimbra, fotógrafo de primeira e amigo, foi clicando durante todo o caminho. E ofereceu-me, gentilmente, algumas fotos que compartilho aqui com vocês. Fica a dica: vale a pena o passeio.

* Todos os trajetos estão no site da empresa e em cada estação. Vale lembrar que em cada estação existem máquinas onde é possível carregar o cartão que dá acesso ao trem.

  • Este texto foi publicado originalmente no site da Casa Monte Alegre
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About ameliagonzalez848

Produtora de conteúdo. Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho, um cachorro.
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2 Responses to História, arte e diversão a bordo do VLT na pré-folia do Centro

  1. Avatar de Ciro Torres Ciro Torres disse:

    Que delicia de passeio Amélia Gonzalez!!! Conheço relativamente bem a nossa Cidade e sua História… mas seu texto maravilhoso e sua escrita cativante e inteligente ,convidou-me a fazer o passeio!!!

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