Sejamos sustentabilistas!!

Como um disco arranhado, a palavra sustentabilista ficou rondando meus pensamentos desde o discurso da ministra do meio ambiente Marina Silva, na quinta-feira, dia 5. Com a permissão que o cargo e a vivência como ambientalista lhe conferem, Marina criou o neologismo. E eu adotei. E passei a cantar, como Caetano Veloso em “Língua”… “Sejamos sustentabilistas, cadê?”.

SAO PAULO, BRAZIL – OCTOBER 5: Brazilian candidate for President Marina Silva speaks during a press conference at the Brazilian Socialist Party on October 5, 2014 in Sao Paulo, Brazil. Marina Silva had 21% of the votes and will not move to the second round against the current President of the Republic, Dilma Rousseff and Aecio Neves. (Photos by Victor Moriyama/Getty Images)

Os tempos estão para musicar, esperançar, criar neologismos e sair cantando. Com os pés no chão. (Escrevi este texto antes dos atos terroristas de domingo. Hoje não ando com vontade de cantar, mas a solidez das instituições estão me acalmando).

Fiquei pensando em como traduzir sustentabilista aqui para os meus leitores. Felizmente não cedi à tentação de decifrar o termo em “hábitos  sustentáveis” , tipo usar menos o carro, tomar banhos menos longos, comer menos a carne vermelha, dispensar as sacolas plásticas. Até porque, cada uma dessas práticas tem pouco peso se considerarmos os impactos causados pelos processos industriais.

Parêntese: sempre que vou ao supermercado com minha bolsa retornável e vejo, nas gôndolas, a quantidade de plástico usada nas embalagens, penso sobre quem está lucrando, verdadeiramente, com minha mudança de hábito. Será mesmo o meio ambiente?

Portanto, ser sustentabilista é um conceito amplo. E vou preferir ampliar o pensamento e incluir, na nossa fictícia mesa de debates, quem tem o poder de provocar mudanças.

“A sustentabilidade não é uma maneira só de fazer, é uma maneira de ser, uma visão de mundo, um ideal de vida. Esses novos ideais identificatórios estão tomando conta do mundo. Os nossos filhos, os nossos netos já nascerão sustentabilistas. Uns serão conservadores, progressstas, capitalistas, socialistas. Mas todos serão sustentabilistas”, garantiu a ministra Marina em seu discurso.

Corroborando este chamamento geral, Marina Silva usou outra palavra várias vezes: transversalidade. As questões ambientais e as mudanças climáticas passarão a ser debatidas em todos os projetos governamentais no momento que eles estiverem sendo pensados, não depois, garantiu. Que assim seja, porque só dessa forma estaremos levando a sério uma questão que impacta pessoas, bichos e plantas.  Todos os seres vivos do planeta.

 Livrando-me, portanto, do lugar comum que põe sobre os cidadãos a arte de “viver de maneira sustentável”, ouso afunilar um pouco mais a compreensão do conceito. Vamos decifrar sustentabilista sob a ótica daqueles têm sob sua batuta a decisão de usar fontes de energia. Afinal, é  este um dos nossos maiores desafios.

E o problema das fontes energéticas terá que ser enfrentado por um governo que se sensibiliza pela causa, como deixou claro o presidente Lula em seu discurso feito logo depois de eleito, na COP27, no Egito. Precisamos de fontes de “energia limpa”, ou seja, sem carbono, cujo acúmulo na atmosfera é o principal responsável pelas mudanças climáticas. Mas, o que é, verdadeiramente, energia limpa?

Em 2015, quando escrevia a  “Nova Ética Social”, coluna que mantinha no portal G1,  estive na Alemanha, a convite do consulado daquele país. A ideia foi mostrar a jornalistas estrangeiros o esforço que a Alemanha estava fazendo para ficarem livres do carvão, uma fonte de energia das mais sujas. Foram cinco dias intensos. Ouvi várias palestras de estudiosos do tema. Fizemos mesa redonda com ambientalistas. E me lembro muito nitidamente de um momento em que cutuquei o colega ao lado, um holandês, para perguntar-lhe se eles estavam considerando mesmo as hidrelétricas como energia limpa ou se eu estava entendo mal o inglês do palestrante.

Eu não estava entendendo mal. Fiquei calada, talvez por inibição, mas tive vontade de perguntar:

“Energia limpa para quem? Vocês têm ideia do impacto que a construção de uma hidrelétrica causa na vida das pessoas que moram às margens dos rios? Do impacto que causa aos peixes do rio que precisa ser represado?”

Sejamos sustentabilistas! E vamos encarar de frente essa tremenda encrenca. Não há fontes de energia totalmente limpas de impactos. Mesmo os paineis solares precisam de silício (mineração). A instalação dos parques eólicos também causam impacto não só à fauna e flora como a habitantes (por causa do barulho) e precisa, por isso, de um planejamento. A questão, então, é diversificar as fontes de energia para não sobrecarregar um único ecossistema.

Para isto, é preciso compor com várias forças. A agenda ambiental e climática exige uma equação complexa, não tem apenas uma, mas várias soluções, por isso precisa de muita gente trabalhando junto. E Marina Silva sabe disso:

“A política nacional do Ministério de Meio Ambiente é feita e sustentada graças à participação de toda a sociedade brasileira, de todos os segmentos da nossa sociedade. É impossivel cuidar da maior floresta tropical brasileira, que contém 25% da biodiversidade e 11% da água doce disponíveis no mundo, de cuidarmos de toda a nossa sociobiodiversidade sem a pariticação da sociedade”, disse ela.

Neste sentido, a ministra Marina estará muito bem acompanhada. Pela primeira vez, a república do Brasil dará voz e assento aos indígenas. Com Sonia Guajajara como ministra dos Povos Indígenas, cada projeto ambiental terá que ser, efetivamente, bom para todos. E isto não será fácil.

No caminho do progresso/desenvolvimento, há pedras, terras, peixes, animais, árvores. E é preciso lidar com isso. Marina Silva afirmou, em seu discurso, que o Ministério do Meio Ambiente “não será um entrave às justas expectativas de desenvolvimento econômico e social de nossa população”. A proposta é facilitar, “sem prejuízo da necessária  proteção de nossos recursos naturais”.

Em 2010, no seu segundo mandato, o presidente Lula fez uma declaração que gerou muito mal estar entre os ambientalistas, quando inaugurou as hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, no Rio Madeira. Ele rebateu a preocupação sobre  o impacto das obras nos bagres, peixes típicos da região. Defendeu a criação dos bagres em cativeiro e afirmou o que ninguém pode negar: “É preciso ter energia para ter desenvolvimento”.

Eis nosso maior desafio.

As barragens Santo Antônio e Jirau são apontadas também como duas manchas da primeira gestão de Marina Silva como ministra do Meio Ambiente (2003-2008). Estive em Roraima  em 2011, fazendo reportagem para o caderno “Razão Social” (O Globo) sobre a vida dos reassentados das duas barragens, e quase todos estavam bastante insatisfeitos.

 A questão, portanto, não era somente ambiental, de preocupação com a extinção dos bagres. Segundo informação que obtive à época, do coordenador dos processos de reassentamentos da Santo Antônio Energia, foram deslocados 1.736 pessoas que moravam à beira do Madeira, viviam de vender os peixes que pescavam artesanalmente ou de roçar seus sítios.

Dona Emilia Mendes, 84 anos, uma das pessoas com quem conversei para fazer a reportagem, seria uma reassentada não fosse o fato de ter se recusado a sair da casa onde morava desde que se casara. A senhora tinha por hábito, diariamente, tomar um café ao amanhecer olhando para a árvore que ficava em frente ao seu quintal. E não houve promessa de um futuro melhor que a fizesse arredar o pé. Tiveram que dar um jeito, mas Emilia não saiu de sua casa.

Em dez anos, a agenda ambiental e climática tem se fortalecido, o que nos leva a acreditar que o novo governo Lula, com Marina à frente do Meio Ambiente, terá mais ferramentas para lidar com os desafios impostos.  Criado em 1988, o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC na sigla em inglês) já publicou cinco grandes Relatórios de Avaliação que geraram subsídios para políticas públicas.

 Em 2007, o quarto relatório foi contundente: “A maior parte do aquecimento global observado desde meados do século XX é conseqüência de aumento na concentração de gases de efeito estufa associadas a atividades humanas”.

No ano passado, o sexto relatório do IPCC acrescentou: estamos emitindo mais carbono a cada ano. Mas os países pobres são os que menos emitem e são os mais vulneráveis aos eventos extremos.

A desigualdade social, portanto, também está na lista de problemas que deve receber atenção especial de quem se preocupa com o meio ambiente. Por isso está certíssima a ministra ao falar em transversalidade.

Não é mágica, disse Marina Silva. É trabalho. E uma nova visão do mundo que segue uma ética de respeito a todos os seres vivos do planeta.

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About ameliagonzalez848

Produtora de conteúdo. Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho, um cachorro.
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