
O apartamento onde eu morava tinha uma varanda enorme, ótimo espaço para os meus três cães.
Fred, Maria e Bidu, meus Shih tzus, vieram à porta para me receber naquele 31 de dezembro de 2012. Já eram quase nove da noite e eu tinha fechado meu último plantão na primeira página do jornal “O Globo”. Terminara assim um período profissional longo, frutífero, intenso, que durou 26 anos.
Peguei uma garrafa de champanhe que tinha deixado no gelo antes de seguir para o trabalho, fui para a varanda, sentei-me na rede. E chorei um tanto. Não eram lágrimas de tristeza exatamente, nem de surpresa, já que eu tinha acordado a saída anteriormente. Eram lágrimas de susto, de apreensão. Hora de recomeçar, o que viria?
O dia seguinte, uma terça-feira, tirei para descansar e refletir. Foi quando eu escrevi o primeiro dos muitos textos que compõem o blog Ser Sustentável, que está fazendo dez anos de existência.
Como devem saber os internautas, para a mídia digital, dez anos é muito mais do que uma década. É quase um século. Muitas inovações. Quando criei o Ser Sustentável, em grande parte para não perder meu capital social, ainda não eram tantos os blogueiros, e os grandes sites de jornais estavam também começando a acertar seus espaços digitais.
Aqui vale um parêntese para as pessoas que não me conhecem: nos últimos nove anos de Globo eu editei o caderno Razão Social. A foto que ilustra este texto é da primeira equipe do caderno: da esquerda para a direita estão o designer gráfico Luis Carlos Rocha, o Maraca; o fotógrafo Carlos Ivan, eu e os repórteres Aydano André Motta e Paula Autran. Foi o primeiro veículo, circulando em grande jornal, que dedicava todo o espaço para o debate sobre responsabilidade social corporativa. O ano era 2003, e era assim que chamávamos o que hoje denominam ESG (Environmental, Social & Governance). O Razão Social passou a não caber no Globo, foi substituído. Minha carreira no jornal também findava ali.
Reler o primeiro texto do meu blog foi bem interessante. Sob o título “A sustentabilidade é um mito?”, eu me detive, como sempre faço, em compartilhar reflexões que adquiro com base em leituras, entrevistas, reportagens. É um texto longo, como têm sido os demais. Não consigo me encarcerar no formato 140 caracteres porque tenho um enorme respeito pelos meus leitores. Creio que quem visita o blog vem em busca de análise, não só de informação. É o que eu tento fornecer, usando como escopo os anos de estudo sobre o tema.
Quando saí do Globo não havia a enxurrada de cursos de extensão que existe hoje. O tema estava começando a ser estudado. Usei, portanto, a prática jornalística para me capacitar. Fui a todas as conferências, encontros, fóruns, mesas redondas, reuniões e palestras que surgiram. Entre outras coisas, ser jornalista é ter curiosidade e estudo para fazer perguntas e escolher a pessoa certa a quem perguntar.
Este texto é apenas para compartilhar com vocês, meus leitores cativos, a alegria que sinto hoje, dez anos depois de ter criado o blog, vinte anos depois de ter ajudado a criar o Razão Social. No meio do caminho, de 2013 a 2022, fui também colunista do G1. Trazendo sempre o mesmo tema como reflexões, nunca verdades.
Estamos vivendo novos tempos no Brasil. Saem de cena a ignorância, o desrespeito às pessoas, aos animais, ao meio ambiente, a falta de apoio aos mais pobres e entra o estilo de um presidente que vinte anos atrás, exatamente quando nascia o Razão Social, transformou o Brasil num país mais digno. Com falhas, mas em curso.
Que os novos tempos sejam prósperos, que o presidente Lula, depois de se desvencilhar da tranqueira deixada pelo antecessor, consiga trilhar o curso que estava trilhando lá atrás. Que o meio ambiente seja visto não como “nosso entorno”, mas como a casa de todos, com bens comuns.
Por fim, que não nos falte trabalho.