Tudo bem, já acabou o Natal. Mas a época de dar presentes se estende. Há famílias que trocam esse carinho só no dia 6 de janeiro, dia em que os Reis Magos presentearam Jesus Cristo. Faz sentido para quem é religioso.

Bem, tudo isso é para justificar o fato de só estar divulgando agora minha pequena lista de sugestões de livros para dar de presente. Antes tarde…
“Cartas a um jovem poeta”, de Rainer Maria Rilke (LP&M Pocket, 91 páginas) – Trata-se do maior poeta de língua alemã do século XX. Mas este livro é em prosa, e deve interessar, sobretudo, aos jovens sensíveis que têm o saudável hábito de refletir sobre os rumos da vida. Franz Kappus, o jovem em questão, aspira tornar-se poeta e pede conselhos, em carta, ao já famoso escritor. Rilke o escreve de volta e começa assim uma troca de cartas, compiladas nesta pequena publicação. Os dois conversam sobre o que consideram os verdadeiros aspectos da vida. Um trecho de uma das cartas mostra também o quanto Rilke tem sensibilidade para perceber a essência de seu correspondente, mesmo de longe:
“… só se pode desejar ao senhor que, cheio de confiança e paciência, deixe trabalhar em sua pessoa a grandiosa solidão que não poderá mais ser riscada de sua vida. Essa solidão permanecerá e atuará, de modo decisivo e sutil, em tudo o que o senhor tem a experimentar e a fazer, como uma influência anônima, como o sangue de antepassados que percorre as nossas veias continuamente, compondo com o nosso próprio sangue o que somos de único e irrepetível a cada nova guinada de nossa vida”.
“Crise climática e o Green New Deal Global”, de Noam Chomsky e Robert Pollin (Ed. Roça Nova, 217 páginas) – É um livro fácil de ler, no formato de perguntas e respostas, e cheio de informações relevantes. Especial para as pessoas que gostam de se informar sobre a crise climática, um grande desafio que a humanidade está enfrentando. O cientista político C. J. Polychroniou foi feliz ao reunir, para uma conversa virtual, como exige essa nossa era pandêmica, o principal intelectual público do mundo Noam Chomsky, ativista político e ambiental, e Robert Pollin, economista progressista que tem atuado como líder em defesa de uma economia verde e igualitária, para compartilhar suas reflexões sobre essa era e os desafios que temos que enfrentar. As reflexões dos dois são o sumo do livro. E são imprescindíveis a qualquer pessoa que gosta de obter informações de qualidade.
“Covid-19: The Great Reset”, de Klaus Schwab e Thierry Malleret (Fórum Publishing, 280 páginas) – O problema desse livro é que ele não tem ainda tradução, portanto só pode ser dado para pessoas que têm intimidade com a língua inglesa. E por que ele pode ser importante na estante? Porque estamos vivendo um período extremamente complexo, e devemos acumular o máximo de informações, dados, estudos, livros, arquivos. Os dois autores são pessoas comprometidas com o “progresso do mundo”, por isso é importante saber o que está sendo pensado por eles. O World Economic Fórum, criado por Schwab, congrega líderes e empresários poderosos anualmente em torno de um tema. O tema do ano 2021 foi “The Great Reset”, ou “O Grande Reinício”. O livro é um apanhado das reflexões dessas pessoas, que pensam no resgate da vida pós-pandemia. Politicamente, economicamente, ambientalmente, serão necessárias mudanças, com certeza. O livro traz análises e algumas ideias.
“O futuro começa agora”, de Boaventura de Sousa Santos (Ed. Boitempo, 426 páginas) – O sociólogo português é agora diretor emérito do Centro de Estudos sociais da Universidade de Coimbra. Escreveu este livro durante a pandemia, por isso o chama de “empreendimento de alto risco”, já que há muitas incertezas nessa época que podem provocar mudanças de cenários. E traz reflexões lúcidas, emergentes. Na primeira parte faz uma análise do mundo atual e cria metáforas para caracterizar o Corona Vírus: “o vírus como inimigo; o vírus como mensageiro; o vírus como pedagogo”. Teremos condições de aprender com o vírus, de fazer mudanças radicais em nosso comportamento, nossa rotina, nossos hábitos de consumo, de produção. Há muita coisa por ser feita, e Boaventura de Sousa Santos lista, uma a uma, sugestões para a humanidade. Se há, e há, um mote a seguir, é o da diversidade, do respeito às culturas, da solidariedade entre os povos. E o sociólogo faz alertas importantes sobre um estado de coisas que pode começar a ser naturalizado, como, por exemplo, o ensino à distância. Considerado como um processo bem-sucedido (e rentável, claro, embora este ponto não seja tão veiculado), na verdade ele provoca uma das muitas exclusões de que se tem notícias, já que segundo a Unesco, 60% dos estudantes do mundo não têm acesso.
“Morte e vida de grandes cidades”, de Jane Jacobs (Ed.Martins Fontes, 499 páginas) – Um bom presente, sobretudo para jovens estudantes de arquitetura e urbanismo. Jane Jacobs é norte-americana nascida em 1916 e este livro é considerado um dos mais influentes estudos urbanos de todos os tempos. Faz uma crítica bem-humorada, num texto gostoso de ler, “à arrogância intelectual que caracterizou boa parte do planejamento urbano moderno”. Apesar de ter sido lançado em 1961, é absurdamente atual.
“Niketche, uma história de poligamia”, de Paulina Chiziane (Ed. Companhia das Letras, 296 páginas) – A autora é moçambicana, pobre, e recebeu, este ano, o Prêmio Camões. O vídeo que mostra o momento em que ela é notificada sobre o prêmio (https://www.youtube.com/watch?v=2jG4BGhYpcQ) mostra a sensibilidade da autora: “É todo um povo que é agraciado por este prêmio… eu venho de lugar nenhum, sou aquela pessoa que teve a sorte de aprender a ler e escrever. Eu vim do chão. Um reconhecimento para alguém que veio de lugar nenhum. Sem dúvida é importante”. Este é um romance que foi reeditado.
“Cuidar de Si, Uma Busca Interior de Saúde Total”, de Mauricio Tatar, com texto de Amelia Gonzalez (Ed. Mauad, 163 páginas) – Mauricio Tatar é um médico homeopata que se especializou em Acupuntura e, assim, aproximou-se bastante da milenar Medicina Tradicional Chinesa. E é meu médico. Esse livro nasceu porque, invariavelmente, ao sair de uma consulta eu me pegava refletindo a respeito das coisas que ele me dizia. O texto é meu, os pensamentos são dele. E quem vai lucrar muito é o leitor, posso garantir. Mauricio Tatar se rege pela simplicidade, condena o uso excessivo de remédios, aposta na alegria e no amor como forma de cura e é contunde quando afirma: “Saúde não vem de fora para dentro, vem de dentro para fora”. Se você parou para pensar, vale comprar o livro.