Do Deserto de Saara à Amazônia. No dia 16, pela manhã, foi inaugurada a exposição “Fruturos – tempos amazônicos”, no Museu do Amanhã, e lá estive, no evento para convidados. Em sete ambientes, o curador Leonardo Menezes convida o visitante a se sentir parte da maior floresta tropical do mundo, que já tem 20% de seu território desmatados. Entre fotos, textos explicativos, objetos da cultural local, desenhos e estruturas, o tempo é o protagonista.

Foto Amelia Gonzalez
Mas o Deserto de Saara, logo na entrada da exposição, chama também para outra reflexão: sobre o espaço. E sobre como estamos todos, globalmente, enfrentando tempos sombrios por conta das mudanças climáticas. Em resumo: o vento leva as areias do Saara para a Floresta Amazônica, as areias são ricas em ferro e fósforo, nutrientes inexistentes na Floresta. Logo, o Deserto de Saara, a cinco mil quilômetros de distância, ajuda a fertilizar a Amazônia. Estão interligados.
Eis a proposta, portanto, para pensarmos. Se existe esta ligação entre forças da natureza, é difícil entender como desprezamos a ligação entre nós, humanos. São 30 milhões de pessoas que vivem na Amazônia e, segundo Índice de Progresso Social, IPS Amazônia 2021, do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), publicado no dia 6 de dezembro, não há progresso social na Amazônia. E as áreas desmatadas, que em tese serviriam para levar o desenvolvimento local, já que são riquezas vendidas, são as menos favorecidas.
Ainda no evento pré-abertura da exposição, as falas das pessoas envolvidas na produção da “Fruturos – tempos amazônicos” foram todas no sentido de alertar para a importância de se conhecer a Floresta. É uma ótima proposta, já que não se consegue falar, com propriedade, sobre temas que não conhecemos de verdade.
Vanda Ortega, líder indígena dos Witoto – povo transfronteiriço entre Brasil, Colômbia e Peru – foi uma das personalidades que falou, e foi muito aplaudida. Como todos os outros, seu depoimento também foi num tom de alerta. Se fosse pintura teria cores fortes. Vanda pediu licença a seus antepassados e contou a história do seu povo, que até 1999 vivia dentro da mata, indígenas ainda não identificados. Só depois que ela entrou para a escola, onde cursou enfermagem, os Witoto foram mapeados.
Vanda contou ainda que hoje seu povo está vivendo na lama, sem água potável – “Mas ninguém está preocupado com isso”, afirma ela.
São muitos os malfeitos que os humanos têm espalhado em sua trajetória. E não começou agora. Grilagem, garimpo, atividades ilegais que deixam a Amazônia à mercê do desmatamento, são temas recorrentes, no mínimo, desde que os líderes se reuniram na Rio-92 para debater o tema. Como se sabe, a floresta degradada é um perigo real, não só porque as árvores servem como sequestradoras de carbono, como porque o solo, revirado de maneira irresponsável, tende a mandar o carbono para a atmosfera. Mas, como diz Vanda, quem se preocupa, verdadeiramente? A exposição traz para a mesa o debate, e isto é importante, sobretudo porque será visitada também por crianças e jovens em idade escolar.
Paulo Artaxo, cientista e integrante do Comitê Científico e de Saberes do Museu do Amanhã, foi sucinto em sua fala: “O futuro da Amazônia é o futuro do planeta. São 120 bilhões de toneladas de carbono: se isso for para a atmosfera, acaba.”
A exposição é bastante informativa. Artaxo ressaltou exatamente a “importância de levar os temas de um dos ecossistemas mais ricos do mundo para um público amplo de maneira bonita, lúdica e simplificada para que qualquer pessoa possa entender. São aspectos relevantes e estratégicos para a sociedade brasileira como um todo”,
“Fruturos” será a exposição com o maior número de objetos da história do Museu do Amanhã. Foi construída a partir do reaproveitamento de peças de outras mostras que já passaram pelo equipamento cultural, e vai apresentar também objetos confeccionados a partir do trabalho de artesãos indígenas de diferentes regiões do país.
No caminho entre minha casa e o Museu, segui pensando sobre a Amazônia que conheci, onde estive algumas vezes. É muito bom vê-la representada para pessoas que vivem tão distante dela. Melhor ainda se a exposição conseguir acender a vontade de visitá-la. Não faltam incentivos na Mostra, já que, segundo o curador Leonardo Menezes, nos diferentes cenários mostrados ali, a exposição traz a perspectiva atual do bioma. Não só no meio ambiente, mas também no campo social e cultural.
Como ressaltou Luiz Eduardo Osorio, vice-presidente executivo de Relações Institucionais e Comunicação da Vale e presidente do Conselho do Instituto Cultural Vale – instituição que apresenta a exposição – há muito o que aprender com a “Fruturos”. Osório destacou, por exemplo, detalhes sobre o Círio de Nazaré, manifestação religiosa católica instituído em Belém do Pará no século XVIII. Hoje o Círio, que acontece no Pará, no Amapá e no Acre, portanto três dos nove estados que compõem a Amazônia Legal, é Patrimônio Cultural da Humanidade, declarado pela Unesco.
Vale a pena visitar “Fruturos”. E estender a visita em conversas, discussões, sobre o nosso momento.