Às vezes fico pensando sobre como os historiadores do futuro vão conseguir explicar esta nossa era. É um tempo de incertezas, um tempo de paradoxos, um tempo em que muitos ainda não se deram conta de que o homem não pode continuar se sentindo superior a tudo, porque desse “tudo” depende a sua própria vida. É um desrespeito global. Complexo? Então deixe eu exemplificar a teoria:

Há pouco estava caminhando com meus cães (dois shih tzus), quando uma menina de seus 4 anos veio por trás e deu um chute no Beto. Claro que foi um chute tranquilo, Beto não sentiu nada, mas o gesto foi horroroso. A mãe ficou consternada. Mas eu amansei a bronca porque um detalhe na cena havia passado despercebido da mãe: a menina tinha arrancado um galho bem grande, bonito, novo, da árvore da calçada, coisa que a mãe não notou. Nem registrou como ato tão horrível quanto o chute no meu cãozinho. É também a isso que me refiro quando falo sobre o desrespeito do homem pela natureza.
Vivemos um tempo de muitos erros, mas que também pode servir para refletir. A natureza precisa deixar de ser o “entorno” e passar a ter um papel principal em nossas vidas. É no que acredito. E, para ajudar nesse processo tão importante, de análise, é preciso informação.
Busco, então, nutrir-me diariamente, procurando informações em vários veículos, sobretudo no tema ao qual me dedico há quase duas décadas: o ecodesenvolvimento. Ou desenvolvimento sustentável. Mais recentemente, também chamado de conceito ASG (Ambiente, Social, Governança) ou ESG (Environmental, Social and Governance). Resumindo muito tudo isso, busco atualizar-me em tudo o que diz respeito ao nosso sistema civilizatório. E não, não é simples. Na maioria das vezes, é angustiante.
Ontem, duas notícias chamaram minha atenção. A primeira, no portal G1, traduzido do site da BBC, na verdade é um artigo escrito pelo cientista Piers Forsters, professor de física das mudanças climáticas e diretor do Centro Internacional Priestley para o Clima da Universidade de Leeds, no Reino Unido. Ele contou que sua equipe da universidade fez uma pesquisa com o objetivo de avaliar se o lockdown quase global que o mundo enfrentou em março de 2020 teria, realmente, sido benéfico para as questões climáticas. Lembram-se como isso foi comentado há cerca de um ano?
Resumindo a conclusão do estudo, que usou dados de mobilidade do Google e da Apple, “tanto no curto quanto no longo prazo, a pandemia terá menos efeito sobre os esforços para combater as mudanças climáticas do que muitas pessoas esperavam”.
“Apesar do céu claro e tranquilo, a pesquisa de que participei mostrou que o lockdown teve, na verdade, um leve efeito de aquecimento na primavera de 2020: conforme a indústria estagnava, a poluição do ar diminuiu e o mesmo aconteceu com a capacidade dos aerossóis, micropartículas produzidas pela queima de combustíveis fósseis, de resfriar o planeta refletindo a luz do Sol para longe da Terra”, escreveu o professor.
Quando fizeram uma projeção para dez anos à frente, os pesquisadores concluíram que o vírus Corona contribuirá para baixar apenas 0,01º grau. Muito mais do que este resultado seria conseguido caso os países decidissem levar a sério os esforços para baixar as emissões, dizem os estudiosos.
Mas, parece que baixar emissões ainda é uma proposta que não pegou. Pelo menos não em políticas públicas de larga escala. No mesmo dia em que foi divulgado esse artigo, uma reportagem comemorou o “superciclo de commodities”. Na conjuntura atual, acreditam economistas ortodoxos, uma forte recuperação de Estados Unidos e China seria uma janela de oportunidades para o Brasil sair da crise. Na avaliação deles, esta expectativa impulsiona “a valorização de produtos como minério de ferro, soja, açúcar, petróleo e outras commodities que têm forte peso na balança exportadora brasileira”.
Considerando que cada uma dessas commodities citadas tem seu peso nas emissões de gases do efeito estufa, e não é peso leve, reparem bem no tamanho do paradoxo. Precisamos de aquecimento na economia? Sim. Precisamos de mais empregos? Sim. Precisamos que o ar esteja mais limpo e o clima não nos submeta a eventos extremos que matam centenas de pessoas a cada passagem de furacões e tempestades? Sim, também.
Precisamos ainda que a agricultura não use tantos agrotóxicos, que as águas não sejam contaminadas por resíduos, que os peixes possam ter tempo para se reproduzir antes de serem pescados… nossa, a lista é grande, viu? Para viver com saúde e causar menos impactos aos bens comuns, a lista é grande.
E ainda tem o Corona vírus. Vários estudiosos já relacionaram o surgimento do nosso maior inimigo atual à maneira pouco respeitosa com que se andam tratando animais silvestres e a terra. Se você, caro(a) leitor(a), prefere acumular mais razões para crer nessa teoria, vale ler o que diz o sociólogo Boaventura de Sousa Santos em seu livro “O futuro começa agora – da pancemia à utopia” (Ed. Boitempo), recém-lançado:
“O modo como o vírus emerge, se difunde, nos ameaça e condiciona as nossas vidas é fruto do mesmo tempo que nos faz ser o que somos. São as nossas interações com animais, e sobretudo com animais selvagens, que o tornam possível. O vírus espalha-se no mundo à velocidade da globalização. … Descobriu os nossos hábitos e a proximidade social em que vivemos uns com os outros para melhor nos atingir. Gosta do ar poluído com que fomos infestando as nossas cidades. Aprendeu conosco a técnica dos drones e, tal como estes, é insidioso e imprevisível onde e quando ataca… Prefere as populações empobrecidas, vítimas de fome, de falta de cuidados médicos, de condições de habitabilidade, de proteção no trabalho, de discriminação sexual ou etnoracial”.
E, agora, a cereja do bolo para concluir minhas reflexões de hoje neste espaço: “Considerar o vírus como parte da nossa contemporaneidade implica ter presente que, se quisermos ver-nos livres do vírus, teremos de abandonar parte do que mais nos seduz no modo como vivemos”.
Ou isto, ou vamos ser vítimas de um apocalipse latente, silencioso, caso nosso conceito de desenvolvimento continue a contemplar números, não o bem-estar de pessoas.
Realmente uma Era de Incertezas prevista em várias correntes religiosas mas, mesmo ateus, estão percebendo que a coisa está bem nebulosa mesmo, independente de Apocalipses e Armagedons. Em matéria de Meio Ambiente e/ ou sustentabilidade, quando uma pessoa está fazendo a sua parte, mas dez não estão, facilmente se deduz que a parte boa se perde no mar das partes ruins, óbvio. Mesmo que alguns estejam empenhados em limpar oceanos, enxugarão gelo se outros continuarem despejando o mercúrio dos garimpos nos rios, matando os peixes e descartando o plástico homicida que todos condenam, mas todos usam. Índios são os guardiões da Natureza, os fiscais do pedaço, os amigos da terra que extraem dela o necessário, jamais o supérfluo. No entanto, quem os deixa viver em paz, ao mesmo tempo em que preservam fauna e flora como jamais aprenderemos a faze-lo? Quem os deixa ser como são, na simplicidade e pureza de suas tradições que merecem preservar? Em nome da ambição, da ganância, do desrespeito, da hipocrisia e da crueldade, rouba-se a sagrada terra deles, onde nasceram seus filhos e netos, seus pais e avós. Uma Era de Incerteza essa, merecidamente nossa, porque colhemos o que plantamos em matéria de irresponsabilidade para com Deus e a Natureza. Pandemia, desemprego e fome, efeito estufa, degelos dos polos, poluição, enchentes; triste e desolador, mas indiscutivelmente justo.