O estudo da percepção do consumidor sobre os apelos de embalagens realizado pelo Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor) e Market Analysis, em que ficou claro que somente 1 em cada 4 consumidores (24%) percebe ativamente as mensagens que dizem respeito à responsabilidade socioambiental das empresas pode ser bastante explorado. Sobretudo se, a este estudo, juntarmos um outro, feito em 2006 pela mesma empresa, em que 27% do público em geral diziam que a melhor indicação de que uma empresa é socialmente responsável é uma etiqueta nos produtos (acima de certificação do governo, parceria com ONGs ou produção do relatório de sustentabilidade). Assim, se nem à etiqueta é dada muita importância, é hora de parar para pensar.
Antes de mais nada, é preciso dar conta de que a pesquisa — feita em 11 capitais, das cinco regiões do país, com amostra de 900 consumidores — foi realizada menos de um ano depois da Conferência Rio+20, em que esse assunto foi amplamente discutido no Brasil e no mundo. Portanto, a pergunta que fica, sobretudo para quem lida com comunicação e informação, mas também para quem se interessa sobre o tema, é: o que impede que os cidadãos (vamos deixar de lado essa alcunha “consumidores”?) levem a sério o papel das empresas na tão desejada mudança para um mundo melhor?
Não precisamos ser Sherlock Holmes para encontrar a primeira pista: as empresas não conseguem ter credibilidade junto às pessoas comuns. Por mais que este cenário tenha melhorado na última década, a verdade é que, historicamente, sempre houve uma batalha surda entre pessoas físicas e jurídicas. O fato de que empresas são, no fim das contas, um aglomerado de pessoas físicas, não é levado em conta quando entram em cena capital e relações trabalhistas.
Vamos longe buscar um exemplo: no século XVI, a posse de ouro e prata era o índice de riqueza e poder de uma nação. Os dois elementos eram considerados “duráveis, que podem ser transformados de qualquer modo sem prejuízo e que têm grande valor em proporção ao volume”, conta-nos Leo Huberman na “História da Riqueza do Homem”. Pois bem. Por isso, baixaram-se leis para proibir a saída desses metais dos países, já que todos queriam acumulá-los o máximo possível. (A foto eu achei no site guiky.com). 
Assim, todos os cidadãos foram proibidos d elevar ouro e prata para fora de seu país, menos… a Companhia Inglesa das Índias Orientais, que tinha em seus estatutos uma cláusula que lhe dava o direito de exportar ouro. Já foi o suficiente para se começar ali uma guerra contra a empresa, que precisou ser defendida por Thomas Mun, um de seus diretores.
O argumento de Mun era forte: embora a companhia realmente enviasse ouro e prata ao Oriente para a aquisição de mercadorias, essas mercadorias eram reexportadas da Inglaterra para outros países, ou nela trabalhadas e mais tarde revendidas além-mar. Era o esqueleto da balança de comércio favorável, mas não é isso que nos importa aqui. Embora, nesse caso, o governo tenha agido com a melhor das intenções – o enriquecimento da nação – a permissividade soou mal aos ouvidos do povo. E gerou muita confusão. Qualquer semelhança com fatos recentes de indignação popular por supostos favorecimentos governamentais a empresas, não terá sido mera semelhança. É assim mesmo, desde que mundo é mundo. Ou melhor, desde que o homem descobriu o absurdo que há no acúmulo da riqueza, mas esse é outro assunto.
O que importa aqui é que a relação entre empresas e pessoas físicas, no fim das contas, é mesmo de amor e ódio. Joel Bakan lembra, no livro “The Corporation”, que nos últimos 150 anos a corporação tem saído de uma relativa obscuridade para se tornar a instituição econômica mais dominante do mundo. “Hoje, as corporações governam nossas vidas. Elas determinam o que comemos, o que assistimos, o que vestimos, onde trabalhamos e o que fazemos”.
Assim mesmo, pelo que vimos na pesquisa atual, na hora de verificar se elas têm atitudes conscientes, falhamos. Se a questão não está na falta de credibilidade dos rótulos, pelo que vimos na pesquisa do passado, o que leva a este comportamento passivo? De novo, a falta de credibilidade nas próprias empresas. A tal caixinha preta, que toda corporação tem, e que se dá o direito, legítimo, de ter, para não abrir informações demais para a concorrência, talvez seja um inimigo.
Para o doutor em ciências econômicas Ladislau Dowbor, formado em economia política pela Universidade de Lausanne , o fato é que não se conhece muito das corporações. “ O maior poder organizado atualmente no planeta – a corporação transnacional – é também o menos conhecido na sua estrutura, mecanismos de gestão, relacionamentos com poder político e midiático, impactos ambientais e assim por diante.”, diz ele em seu blog (dowbor.org) no comentário ao filme “The Corporation”.
E assim, quando vêm à tona notícias dando conta de falcatruas empresariais, ajudam a corroborar sentimentos pouco amigáveis. O resultado de outra pesquisa feita pela Market Analysis em 2006 mostra isso: 80% das pessoas ouvidas achavam que as corporações tentam ser socialmente responsáveis apenas para melhorar sua imagem, não por quererem dar uma contribuição positiva para a sociedade. Ao mesmo tempo, no mesmo ano, outro estudo da mesma organização, desta vez feito em parceria com o Instituto Ethos e o Akatu, mostrava que 88% das pessoas concordavam que é responsabilidade das empresas ajudar a resolver problemas sociais, tais como criminalidade, pobreza e baixa educação.
Sim, mas como aferir se elas fazem isso num rótulo de embalagem? E mais: como acreditar que o que o rótulo da embalagem diz condiz com a realidade?
Para se informar sobre as ações das empresas, os cidadãos têm outro instrumento, o balanço social, ou relatório de sustentabilidade, ou relatório de ações sociais. Há ainda a chance de buscar o que quer saber através do site da corporação. Assim mesmo, a maioria, ainda em cima da pesquisa feita pela Market Analysis em 2006, prefere ser informada pela mídia.
A pergunta é: as reportagens que falam sobre os projetos apoiados pelas empresas são levadas a sério pelos leitores? Sem resposta.
Bem, mas tem também algum componente que dá conta de uma quase desconexão dos cidadãos com notícias relacionadas às questões de sustentabilidade. A pesquisa do Idec, por exemplo, mostra que 46% da população nunca viram e não conhecem as mensagens de apelo às compras nas embalagens dos produtos, e um pouco menos de um terço da população (30%), pouco sabem sobre a existência dessas mensagens.
Mas o que não falta, hoje, é meio para que essas informações possam circular. E organizações que ajudem a propagá-las. Vejam, por exemplo, a pesquisa que a britânica Oxfam, conceituada associação de organizações que trabalham pelo fim da pobreza e da desigualdade no mundo, lançou junto com a campanha “Cresça: abra a boca para acabar com a fome” que foi divulgada ontem pela revista “Amanhã”, de O Globo. Segundo os estudos, 49% das pessoas entrevistadas no Brasil discordaram da informação “eu realmente não tenho interesse em saber como os alimentos que compro são produzidos”. Ou seja: 51%, no mínimo, concordaram com a frase.
No site da organização (oxfam.org) há informações sobre um estudo feito sobre a forma como as dez maiores empresas dos setores de alimentos e bebidas do mundo – que movimentam anualmente cerca de US$ 800 bilhões – lidam com aspectos importantes como apoio a pequenos agricultores, mão de obra feminina no campo e direito à terra. E há também uma petição endereçada à Nestlé para que a empresa passe a ter mais respeito sobre o trabalho das mulheres no campo. Pode ser assinada por quem quiser.
E vamos tentando propagar informações. Pode acessá-las aqui ou em qualquer outro veículo de sua preferência.