Começa no dia 23 de março o próximo Forum Social Mundial, que este ano será realizado em Tunis, capital da Tunísia, até o dia 28 de março. Por que Tunis? Porque começou lá, em janeiro de 2011, a onda de revolta que tomou o mundo árabe e ficou conhecida como Primavera Árabe. E, de todos os estados árabes, pode ter sido este o que conseguiu a transição para uma democracia de maneira mais bem sucedida, segundo os especialistas. Sendo assim, Tunis transformou-se também numa espécie de símbolo da potência de um povo quando resolve se unir. Mas, longe de estar comemorando vitória, o Forum Social Mundial está disposto a tocar em feridas e pôr em discussão os avanços e retrocessos (talvez mais retrocessos do que avanços) no caminho para a construção de uma nova cultura política, de um novo modelo de civilização com bases verdadeiramente democráticas. E sustentáveis.
O primeiro Forum Social Mundial aconteceu em Porto Alegre, em 2001, e Francisco Whitaker Ferreira, arquiteto, político e ativista social foi um de seus fundadores. Em entrevista ao jornal “Correio do Brasil” (http://correiodobrasil.com.br/destaque-do-dia/chico-whitaker-fsm-deste-ano-na-tunisia-mostra-desafios-de-um-novo-mundo-possivel/579501/) , Chico Whitaker (a foto foi tirada durante a entrevista)
fez um balanço do FSM e falou sobre o objetivo inicial, que era criar um espaço para lançar a mensagem de que um novo mundo é possível, declaração claramente antagônica ao Forum Econômico Mundial, em Davos, que hegemoniza todas as decisões com base no dinheiro e no lucro. Pois bem. A massa do bolo, ou seja, a necessidade de uma nova cultura política, está pronta. O que é tarefa difícil, segundo Whitaker, é a maneira como se vai construir essa nova cultura política:
— Vivemos avanços e retrocessos, porque ela exige também a mudança dentro de cada um dos que dela participam, para desaprender hábitos e métodos arraigados na esquerda há mais de cem anos – disse Whitaker à repórter Marilza de Mello Foucher.
Em reunião preparatória ao Forum realizada em São Paulo no mês passado com vários grupos de trabalho, a própria organização do encontro se colocou em xeque. Como levar para o dia a dia de ONGs e Associações as práticas que são apontadas como soluções de um novo modelo civilizatório, como por exemplo a horizontalidade? Como agregar à discussão povos que vivem em condições precárias e não têm nem dinheiro para chegar ao encontro? Afinal, o que quer ser o Forum Mundial Social ante o novo contexto global? Um lugar para reflexão e intercâmbio?
Faz sentido, pois, que o encontro seja em Tunis. Afinal, os tunisianos promoveram uma tremenda mudança em sua própria civilização a partir de um desconforto crescente com uma política tirana e totalitária. Se há no mundo atualmente pessoas com o mesmo nível de insatisfação com o rumo que as coisas tomaram a partir do neoliberalismo dos anos 80, por que não se consegue então uma inovação real nas práticas políticas, na direção contrária ao que preconizou Margareth Tatcher – “There is no alternative” ?
Acreditar na horizontalidade e, ao mesmo tempo, respeitar os direitos de cada um, já que a nova cultura se basearia na diversidade, é um paradoxo. Mas não é novo. Entra aí a eterna discussão sobre público e privado. E é só dar um passeio por alguns autores que estudaram a ordem social para ver que o dilema não vem de hoje. A pensadora alemã Hannah Arendt, por exemplo, escreveu na década de 50 que a reação rebelde contra a sociedade, “no decorrer da qual Jean Jacques Rousseau (filósofo genovino do século XVIII) e os românticos descobriram a intimidade foi dirigida, em primeiro lugar, contra as exigências niveladoras do social, contra o que hoje chamaríamos de conformismo inerente a toda a sociedade”.
“Pouco importa se uma nação se compõe de iguais ou desiguais pois a sociedade exige sempre que os seus membros ajam como se fossem membros de uma enorme família que tem apenas uma opinião e um único interesse. Isso é possível?”, perguntavam-se os pensadores do século XVIII.
Para o pessoal que começou em setembro de 2011 a protestar contra a “desigualdade econômica, social, a ganância, a corrupção e a influência abusiva das empresas na ordem social”, no movimento que se chamou de Occupy Wall Street mas que hoje já se espalha mundo afora, a resposta à pergunta dos românticos é sim. A obsessão pela horizontalidade, por não terem um líder ou um representante para falar em nome do grupo é levada a sério. E anda incomodando muita gente. Em artigo recente publicado no “Le Monde Diplomatique”, o jornalista Thomas Frank, da “Harper’s Magazine”, chama de “parafernália pseudointelectual” a entrevista dada por um dos integrantes do movimento que afirma que “Cada um pode falar apenas por si mesmo; ao mesmo tempo, o si mesmo poderia muito bem se diluir em seu próprio questionamento. Não posso falar apenas por mim: é o apenas que conta nesse caso e, certamente é aí que muitos espaços se abrem”.
Para Frank, “a forma como a campanha do OWS é apresentada dá a impressão de que o movimento não tinha nada a propor além da construção de ’comunidades’ (assim mesmo, entre aspas) no espaço público e o exemplo dado ao gênero humano pela nobre recusa de eleger porta-vozes”.
Mas vale lembrar ao jornalista que na antiguidade a civilização era exatamente assim. Vejam o que diz o filósofo Frederick Nietzsche (morto em 1900) em “Gaia Ciência”: “Durante o mais longo período da humanidade não havia nada mais aterrador do que sentir-se particular. Estar só, sentir particularmente, não obedecer nem mandar, ter significado como indivíduo – naquele tempo isso não era um prazer, mas um castigo; a pessoa era condenada a “ser indivíduo”. A liberdade de pensamento era o mal-estar em si. Enquanto nós sentimos a lei e a integração como coerção e perda, sentia-se o egoísmo como algo doloroso, como verdadeira desgraça… Tudo o que prejudicava o rebanho, seja que o indivíduo tivesse desejado ou não, dava remorsos ao indivíduo – e também a seu vizinho, e mesmo ao rebanho todo! – Foi nisso, mais do que tudo, que nós mudamos”.
Mas, antes que nosso pensamento acostumado às artimanhas da dialética julgue que esse era o melhor dos mundos, Hannah Arendt lembra que “o governo de ninguém não é necessariamente um não-governo; pode, de fato, em certas circunstâncias, vir a ser uma das suas mais crueis e tirânicas versões”. “Ao invés de ação, a sociedade espera de cada um dos seus membros certo tipo de comportamento, impondo inúmeras e variadas regras, todas elas tendentes a ‘normalizar’ os seus membros, a fazê-los comportarem-se, a excluir a ação espontânea ou a façanha extraordinária”.
Nessa hora, o melhor é pedir ajuda a outro filósofo, Gilles Deleuze (foto do site hilobrown.com), que em sua tese de mestrado “Diferença e repetição” se pergunta: “Qual é o conceito da diferença – que não se reduz à simples diferença conceitual, mas que exige uma ideia própria, como uma singularidade na ideia?”
O ser unívoco, distinto, que não se aplica a julgamentos e teses, que não se encaixa em conceitos e pré-conceitos, que não se traduz como unidades e gêneros, mas que se distingue a cada momento, responde ele. O desafio, portanto, continua o mesmo: como lidar com isso para tentar um novo modelo, considerando que a formação aristotélica que os sistemas (sobretudo o capitalista) apreenderam está mostrando falhas?
“Quem hoje acha possível efetivamente, outro mundo? Nós que lutamos por ele já estamos dizendo que ele, além de possível, é absolutamente necessário, e, extremamente urgente… Mas, a que distância nós estamos até mesmo simplesmente de resultados eleitorais mais favoráveis a essa mudança!”, observa Whitaker em sua entrevista.
Fato é que a pouco mais de um mês do evento, o comitê organizador do FSM já contabilizou 2500 entidades inscritas, das quais 700 são tunisianas, 148 brasileiras e 60 norte-americanas. Ao todo já são 1.475 atividades definidas. Explica-se com facilidade o grande número de inscritos tunisianos: além da proximidade física, o povo de lá está passando por um momento muito semelhante ao que passamos aqui no Brasil depois da ditadura. Eles descobriram que têm voz e que ela pode ser ouvida. Mesmo que isso signifique ficar horas em “palavras de ordem”, é absurdamente melhor do que se submeter a um regime totalitário como ainda há muitos no mundo. Disso, ninguém tem dúvida. Resta saber explorar mais essa liberdade para tentar vislumbrar um resultado para além do protesto.
“ Quando teremos condições de conseguir que nossos governos proíbam, por exemplo, o uso e a comercialização dos mais diversos tipos de venenos que chegam às nossas mesas de refeição? Como “dobrar” a vontade insaciável de lucro das empresas que ganham com isso? Nem falemos das guerras, como a invasão do Iraque, um bom exemplo do tamanho da dificuldade. Respondendo a uma conclamação feita não pelo FSM – que é um espaço e não um movimento – mas pelos movimentos e organizações que difundiram esse apelo no Fórum Social Europeu de 2002 e no Fórum Social Mundial de 2003, 15 milhões de manifestantes pela Paz foram às ruas em fevereiro de 2003. Mas mesmo essa gigantesca mobilização – a maior da história da Humanidade, segundo o “Guinness Book dos Recordes” – não mudou, infelizmente, a decisão do Governo norte-americano”, lamenta Whitaker.
Assim sendo, e em respeito às 2.500 entidades inscritas para apresentar suas linhas de pensamento, o exercício de não ter representante, tão criticado pelo jornalista Thomas Frank e outros, talvez seja mesmo o melhor dos exercícios para este Forum, que considera a horizontalidade “um novo paradigma de pensamento, não uma metodologia”. Que seja, assumidamente, uma forma de fazer barulho, de se aglutinar em torno de muitas ideias e de saber respeitar a si próprio e aos outros. Sem esperar grandes resultados imediatos e midiáticos, mas considerando como vitória os pequenos avanços, como a própria opção por articulações em rede e não em pirâmides, como lembra Whitaker:
— Nas pirâmides se insinua sempre a luta pelo poder, motivação básica da cultura política “velha”. Desde o primeiro FSM já se constatou que um novo ator político emergia no mundo: a sociedade civil, autônoma em relação a partidos e governos.
O duro é levar adiante pensamentos abrangentes, não baseados no velho maniqueísmo, numa sociedade ainda tão habituada a escolher entre o bem e o mal, o certo e o errado, o herói ou vilão e arriscar-se para fora dessa linha reta.
Termino esse texto, que como viram se propõe a costurar pensamentos, não a ditar certezas, com uma frase de Frederick Nietzsche: “Quem possui o rufo do tambor possuiu até agora a eloquencia mais persuasiva. Enquanto os reis o tiverem em seu poder, serão sempre os melhores oradores e incitadores do povo.”